Estudo liga atividade física após diagnóstico de câncer a maior sobrevida

Pesquisa publicada no JAMA Network com mais de 17 mil sobreviventes de câncer identificou que a atividade física após o diagnóstico está associada a menor risco de morte. O benefício apareceu inclusive entre pacientes sedentários que começaram a se exercitar depois da doença.
Homem pratica atividade física após câncer em parque durante exercício ao ar livre
Estudo aponta que atividade física após câncer pode reduzir risco de morte até entre pacientes sedentários. (Foto: Pexels)

Um estudo publicado no JAMA Network, em Chicago, nos Estados Unidos, com mais de 17 mil sobreviventes de câncer identificou que começar atividade física após o diagnóstico pode reduzir o risco de morte, inclusive entre pacientes sedentários. A associação apareceu em diferentes tipos de tumor e reforça o exercício físico como aliado relevante na recuperação oncológica.

A pesquisa reuniu dados de pacientes acompanhados em seis grandes estudos de saúde de longo prazo. Os pesquisadores analisaram casos de câncer de bexiga, endométrio, rim, pulmão, boca, ovário e reto, comparando os níveis de atividade física antes e depois do diagnóstico.

Apoio

O resultado mostrou um padrão consistente: pessoas fisicamente ativas apresentaram menor mortalidade relacionada à doença.

O dado que mais chamou atenção, porém, apareceu entre pacientes sedentários que passaram a praticar exercícios após o câncer. Nesse grupo, os pesquisadores observaram redução significativa no risco de morte, principalmente nos casos de câncer de pulmão e reto.

A descoberta ajuda a desmontar uma percepção comum entre pacientes oncológicos: a ideia de que apenas pessoas já habituadas ao exercício conseguiriam obter benefícios relevantes após a doença. O estudo sugere justamente o contrário. Sair do sedentarismo já pode representar ganho importante para recuperação e qualidade de vida.

Pesquisas anteriores já associaram exercícios físicos à redução de inflamações crônicas, preservação da massa muscular e melhora da capacidade cardiovascular, fatores que podem influenciar recuperação, prognóstico e tolerância ao tratamento oncológico.

Os pesquisadores também observaram benefícios mesmo em pequenas quantidades de movimento, inclusive entre pacientes com limitações físicas causadas pelo tratamento.

O estudo observou associação entre atividade física e menor mortalidade, mas não estabelece relação direta de causa e efeito.

Na prática, os resultados ajudam a reduzir uma das principais barreiras enfrentadas por pacientes com câncer: a percepção de que seria necessário atingir metas elevadas ou esperar o fim do tratamento para começar a se exercitar. A pesquisa indica que mudanças graduais na rotina já podem representar um primeiro passo importante.

Sedentários também tiveram ganho de sobrevida após diagnóstico

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada ou intensa. Ainda assim, a nova pesquisa sugere que qualquer avanço em direção a uma rotina menos sedentária já pode gerar benefícios para pacientes oncológicos.

Outro ponto frequentemente observado durante quimioterapia e radioterapia é a fadiga relacionada ao tratamento. Estudos anteriores indicam que exercícios leves e moderados também podem ajudar no controle desse desgaste físico.

Para a oncologista clínica Ana Paula Garcia Cardoso, do Einstein Hospital Israelita, esse é um dos principais impactos do levantamento.

A pesquisa também reforça uma mudança gradual dentro da oncologia. O exercício físico deixa de aparecer apenas como recomendação ligada ao bem-estar e passa a ganhar espaço dentro das estratégias de cuidado e recuperação funcional.

Especialistas ressaltam que a atividade física não substitui tratamentos médicos contra o câncer, mas pode atuar como aliada na preservação da capacidade funcional e da qualidade de vida durante a recuperação.

Os resultados chamam atenção principalmente porque os benefícios apareceram em tipos de câncer que ainda tinham menos evidências consolidadas sobre o tema, como pulmão, bexiga, endométrio e ovário.

Atividade física após câncer: Caminhada e exercícios leves já apareceram associados a benefício

As atividades analisadas incluíram caminhadas, bicicleta e exercícios aeróbicos moderados. A pesquisa não comparou modalidades específicas, mas mostrou que manter o corpo em movimento já pode gerar impacto positivo.

Isso ajuda a reduzir uma barreira comum entre pacientes que enfrentam fadiga, perda muscular ou dificuldades durante a quimioterapia. Muitas vezes, a ideia de seguir metas difíceis acaba afastando pessoas que poderiam começar com mudanças simples.

Os resultados indicam uma direção diferente: caminhadas regulares, exercícios leves e uma rotina menos sedentária já podem ajudar pacientes com câncer a melhorar recuperação e aumentar a sobrevida.

Especialistas recomendam começar com metas pequenas e realistas, como caminhadas curtas, alongamentos leves ou poucos minutos de movimento por dia. O mais importante é transformar a atividade em um hábito possível de manter na rotina, respeitando as condições clínicas de cada paciente.

A orientação médica continua importante para adaptar intensidade e frequência às condições individuais. Ainda assim, o estudo reforça que adiar o início da atividade física pode significar perder benefícios associados ao movimento regular.

Exercício passa a ganhar espaço dentro do tratamento oncológico

Além dos possíveis efeitos biológicos, a atividade física após câncer também produz impacto funcional e emocional durante o tratamento.

O diagnóstico costuma provocar perda de rotina, redução da autonomia e sensação de fragilidade física. Criar hábitos ativos pode representar justamente o caminho oposto: retomada gradual da independência e recuperação da capacidade funcional.

Manter mobilidade e autonomia durante o tratamento costuma ser um dos principais desafios para pacientes com câncer, principalmente em terapias mais agressivas ou prolongadas.

Na prática, o exercício também pode ajudar pacientes a recuperar parte da rotina e da participação ativa na própria recuperação.

A principal mensagem da pesquisa é que a prática de exercícios não depende de histórico esportivo, alta intensidade ou desempenho físico elevado. O benefício apareceu justamente entre pessoas que decidiram começar depois do diagnóstico.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de profissionais de saúde. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure um médico ou profissional habilitado.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

Mais lidas

Últimas notícias