Por que Vênus gira ao contrário? Descoberta da USP muda teoria sobre a evolução dos planetas

Pesquisadores da USP apresentaram uma nova explicação para a rotação retrógrada de Vênus. O estudo sugere que a combinação entre forças gravitacionais e a atmosfera extremamente densa do planeta pode ter invertido seu sentido de rotação ao longo de bilhões de anos. A descoberta ajuda a entender a evolução planetária e amplia as pesquisas sobre exoplanetas semelhantes à Terra.
Por que Vênus gira ao contrário? Imagem do planeta Vênus usada em estudo da USP que explica a rotação retrógrada do astro.
Por que Vênus gira ao contrário? Imagem do planeta Vênus usada em estudo da USP que explica a rotação retrógrada do astro. (Foto: NASA/JPL-Caltech)

Entender por que Vênus gira ao contrário sempre foi uma das grandes questões da astronomia. Agora, uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) apresenta uma explicação capaz de mudar a forma como os pesquisadores interpretam a evolução dos planetas.

O estudo indica que a rotação retrógrada de Vênus — fenômeno que faz o planeta girar no sentido oposto ao da Terra e da maioria dos corpos do Sistema Solar — pode ter surgido naturalmente ao longo de bilhões de anos. A conclusão reduz a dependência de teorias baseadas em grandes colisões cósmicas e sugere que a própria evolução atmosférica do planeta foi suficiente para alterar sua dinâmica.

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Mais do que responder por que Vênus gira ao contrário, a descoberta amplia a compreensão sobre como mundos rochosos evoluem e pode ajudar cientistas a interpretar milhares de exoplanetas já identificados fora do Sistema Solar.

A relevância da pesquisa vai além da astronomia acadêmica. Quanto mais os cientistas compreendem os mecanismos que transformam um planeta ao longo do tempo, maior é a capacidade de identificar ambientes potencialmente habitáveis e entender a enorme diversidade de mundos existentes no Universo.

Durante décadas, uma das hipóteses mais aceitas atribuía a rotação invertida de Vênus a impactos gigantescos sofridos em sua formação. O novo estudo sugere que a mudança pode ter ocorrido de forma gradual, como consequência natural da interação entre atmosfera, gravidade e energia solar.

Por que Vênus gira ao contrário: Pesquisa brasileira apresenta nova explicação para a rotação

A pesquisa foi liderada por Sylvio Ferraz Mello, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), com resultados publicados no periódico científico The Astronomical Journal.

Segundo o estudo, dois mecanismos atuam simultaneamente sobre o planeta. O primeiro são as marés gravitacionais provocadas principalmente pela atração do Sol, que tendem a desacelerar a rotação planetária. O segundo envolve a atmosfera venusiana, cerca de 90 vezes mais massiva que a terrestre, capaz de gerar efeitos térmicos que impulsionam o giro no sentido oposto.

Os pesquisadores concluíram que a influência atmosférica supera gradualmente a ação gravitacional, tornando possível a inversão do sentido de rotação.

O resultado oferece uma explicação física consistente para uma questão que há décadas mobiliza astrônomos interessados em compreender o comportamento dos planetas rochosos.

Como a atmosfera de Vênus mudou a história do planeta

Um dos pontos mais importantes do trabalho, sobre por que Vênus gira ao contrário, é a reconstrução de um possível cenário evolutivo para Vênus.

As simulações sugerem que o planeta nem sempre apresentou o comportamento atual. Em seus estágios iniciais, ele provavelmente girava de forma semelhante à Terra, com o Sol aparentemente nascendo a leste e se pondo a oeste.

Com o passar do tempo, gases liberados do interior do planeta contribuíram para a formação de uma atmosfera cada vez mais espessa. Esse processo aumentou gradualmente o chamado torque atmosférico, alterando a dinâmica planetária até atingir um ponto capaz de inverter sua rotação.

O resultado chama atenção porque Vênus é frequentemente chamado de “planeta gêmeo da Terra”. Os dois possuem dimensões, massa e composição rochosa semelhantes. Ainda assim, seguiram caminhos evolutivos muito diferentes.

Por que um dia em Vênus dura mais que um ano

Entre as características mais curiosas do planeta está a duração do seu dia.

Vênus leva cerca de 243 dias terrestres para completar uma volta em torno do próprio eixo. Já seu ano dura aproximadamente 225 dias terrestres, tempo necessário para completar uma órbita ao redor do Sol.

Na prática, isso significa que um dia venusiano é mais longo do que o próprio ano no planeta, uma das características mais incomuns já observadas no Sistema Solar.

Essa singularidade transforma Vênus em um laboratório natural para entender como processos atmosféricos podem alterar profundamente a história de um mundo.

O que Vênus ensina sobre planetas parecidos com a Terra

Uma das contribuições mais relevantes da descoberta é mostrar como pequenas diferenças na evolução de um planeta podem produzir resultados completamente distintos ao longo do tempo.

Embora seja semelhante à Terra em tamanho, massa e composição rochosa, Vênus desenvolveu uma atmosfera extremamente densa e seguiu um caminho evolutivo muito diferente.

Compreender esse processo ajuda os cientistas a investigar como fatores atmosféricos podem alterar clima, rotação e estabilidade de um planeta.

Essa análise é especialmente importante porque a comparação entre Terra e Vênus oferece pistas sobre os mecanismos que influenciam ambientes potencialmente habitáveis.

O que a descoberta revela sobre outros planetas

A pesquisa não ajuda apenas a responder por que Vênus gira ao contrário. Ela também abre novas possibilidades para o estudo de exoplanetas.

Os autores argumentam que planetas rochosos localizados em zonas habitáveis de estrelas semelhantes ao Sol podem desenvolver atmosferas densas o suficiente para produzir efeitos semelhantes aos observados em Vênus.

Isso sugere que a inversão da rotação pode não ser um fenômeno raro. Em determinadas condições físicas, ela pode representar um resultado natural da evolução planetária.

A importância dessa conclusão cresce porque a astronomia vive uma era de descobertas aceleradas. Mais de 5 mil exoplanetas já foram confirmados, e compreender como atmosfera, gravidade e radiação estelar afetam sua rotação ajuda os cientistas a interpretar características que ainda não podem ser observadas diretamente.

Por que Vênus gira ao contrário: Ciência brasileira amplia o conhecimento sobre o Universo

A relevância do estudo também está na contribuição brasileira para uma das áreas mais estratégicas da ciência atual.

Explicar a origem da rotação retrógrada de Vênus significa avançar em uma questão aberta desde os anos 1960, quando observações por radar revelaram que o planeta girava em sentido contrário ao da maioria dos corpos do Sistema Solar.

A descoberta coloca a pesquisa brasileira em uma discussão científica internacional sobre evolução planetária, atmosferas extremas e interpretação dos milhares de exoplanetas identificados nas últimas décadas.

Outro aspecto importante é que o trabalho reduz a necessidade de explicações baseadas em eventos extremos, como colisões gigantescas. Em vez disso, sugere que mudanças graduais e previsíveis na atmosfera podem transformar profundamente um planeta ao longo de bilhões de anos.

Embora a descoberta não produza efeitos imediatos no cotidiano, ela amplia o conhecimento humano sobre a formação dos mundos e mostra como pesquisas desenvolvidas no Brasil contribuem para responder algumas das perguntas mais fascinantes sobre o Universo.

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Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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