Luta antimanicomial transformou ex-interno psiquiátrico em artista reconhecido

A trajetória de Edson Antunes mostra como a luta antimanicomial e a reforma psiquiátrica mudaram o tratamento da saúde mental no Brasil com acolhimento, arte e reinserção social.
Edson Antunes no Instituto Nise da Silveira em atividade ligada à luta antimanicomial
Edson Antunes reconstruiu a vida por meio da arte após anos de internação psiquiátrica. (Foto: Divulgação)

A trajetória de Edson Antunes, de 63 anos, ajuda a explicar por que a luta antimanicomial mudou a forma como o Brasil trata a saúde mental. Internado ainda na infância em um modelo psiquiátrico baseado no isolamento, ele encontrou na arte um caminho para reconstruir vínculos, recuperar autonomia e voltar à convivência social. Hoje, mantém um ateliê no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, expõe obras no Brasil e no exterior e participa de projetos culturais e educativos.

A história ganha força no Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado nesta segunda-feira (18/05), data que reacende o debate sobre reforma psiquiátrica brasileira, cuidado em liberdade e atendimento humanizado. Mais do que substituir manicômios, a mudança alterou a forma como pacientes passaram a ser vistos: não apenas como casos clínicos, mas como pessoas com história, identidade, direitos e capacidade de reconstrução.

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A mudança no modelo de atendimento também alterou a relação de muitos pacientes com trabalho, renda, convivência familiar e participação social, temas que passaram a integrar as políticas públicas de saúde mental.

Como a luta antimanicomial mudou o tratamento da saúde mental

Edson viveu duas etapas opostas da saúde mental no Brasil. A primeira foi marcada pela institucionalização ainda na infância, período em que pacientes psiquiátricos eram afastados da convivência social e submetidos a longas internações.

Durante décadas, hospitais psiquiátricos brasileiros foram alvo de denúncias de isolamento forçado, violência e perda completa da convivência social de milhares de pacientes. O avanço da luta antimanicomial passou justamente a questionar esse modelo baseado no confinamento e na exclusão.

A segunda etapa da vida de Edson começou quando encontrou espaços de acolhimento ligados à rede de atenção psicossocial e ao modelo de cuidado em liberdade.

O contato com a pintura aconteceu após incentivo de profissionais do Caps Raul Seixas. Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) foram criados para substituir parte do modelo baseado em internações prolongadas. As unidades oferecem atendimento psicológico, psiquiátrico e terapêutico em regime comunitário, buscando preservar vínculos familiares e sociais dos pacientes.

Segundo o Ministério da Saúde, a Rede de Atenção Psicossocial reúne Caps, residências terapêuticas e serviços comunitários voltados ao atendimento em liberdade de pessoas com sofrimento psíquico.

O desenho passou a funcionar como forma de expressão emocional e, aos poucos, ocupou um papel central em sua reconstrução pessoal.

“Tudo que me fazia mal, eu passei para a tela”, afirmou.

Hoje casado e pai de dois filhos, Edson diz que encontrou pertencimento dentro do Instituto Nise da Silveira.

“Minhas verdadeiras obras de arte hoje estão em casa: minha esposa e meus filhos. Mas aqui encontrei uma família, onde sou tratado como ser humano”, declarou.

A transformação ultrapassou o aspecto emocional. As obras dele chegaram ao Paço Imperial, no Centro do Rio, à Escola de Belas Artes de Verona, na Itália, e a outras exposições culturais brasileiras. A arte deixou de ser apenas atividade terapêutica e virou instrumento de autonomia, renda e inclusão social.

O que mudou após a reforma psiquiátrica brasileira

A luta antimanicomial ganhou força no Brasil após denúncias sobre violações em instituições psiquiátricas e críticas ao antigo modelo de tratamento psiquiátrico.

O avanço da reforma psiquiátrica ocorreu após décadas de denúncias sobre abandono, violência e isolamento de pacientes em instituições psiquiátricas brasileiras, cenário que impulsionou o fortalecimento do movimento antimanicomial no país.

A reforma psiquiátrica passou a defender tratamento comunitário, convivência social e atendimento mais humanizado. A luta antimanicomial também ajudou a ampliar o debate sobre direitos humanos, autonomia e inclusão social de pacientes psiquiátricos.

A mudança ganhou respaldo legal com a Lei 10.216/2001, considerada um marco da saúde mental no Brasil. A legislação priorizou o cuidado em liberdade, a redução de internações prolongadas e a reinserção social de pessoas com sofrimento psíquico.

Na prática, o novo modelo abriu espaço para centros de atenção psicossocial, oficinas culturais, projetos terapêuticos coletivos e iniciativas ligadas à arte, esporte e geração de renda.

Especialistas ligados à luta antimanicomial ainda apontam desafios como falta de estrutura em parte da rede pública e dificuldade de acesso ao atendimento em algumas regiões do país.

A trajetória de Edson traduz os efeitos concretos dessa transformação. O que antes era uma experiência marcada por isolamento virou uma rotina baseada em convivência, produção artística e participação social.

Luta antimanicomial: Nise da Silveira virou símbolo do cuidado em liberdade

O Instituto Municipal Nise da Silveira carrega parte dessa transição histórica. O espaço, que no passado funcionou dentro da lógica manicomial, hoje reúne atividades culturais, terapêuticas e projetos de inclusão ligados ao cuidado em liberdade.

A psiquiatra alagoana Nise da Silveira se tornou referência internacional ao defender métodos de cuidado em saúde mental baseados em escuta, arte e convivência humana. Em oposição a práticas agressivas usadas em hospitais psiquiátricos no século passado, ela passou a utilizar atividades expressivas e vínculos afetivos como parte do tratamento terapêutico.

Segundo a diretora Erika Pontes, revisitar essa história ajuda a compreender os impactos produzidos pelo antigo modelo psiquiátrico.

“Várias pessoas foram internadas aqui ainda na infância. Os efeitos disso são inúmeros”, afirmou.

Hoje, o instituto abriga o Espaço Travessia, oficinas culturais, ações de geração de renda e o Museu de Imagens do Inconsciente, criado a partir do trabalho desenvolvido pela psiquiatra Nise da Silveira.

O local também mantém o Memorial da Loucura, que apresenta documentos, relatos e objetos relacionados à história da psiquiatria brasileira, desde o período dos manicômios até o processo de desinstitucionalização dos pacientes.

Além das atividades terapêuticas, o espaço promove oficinas abertas ao público, rodas culturais, apresentações artísticas e projetos esportivos ligados à Rede de Atenção Psicossocia l.

Festival discute saúde mental e inclusão social

Entre os dias 19 e 25 de maio, o Instituto Nise da Silveira promove a 4ª edição do Festival Nós na Luta, em referência ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

O Dia Nacional da Luta Antimanicomial surgiu a partir de mobilizações de trabalhadores da saúde mental na década de 1980, período em que cresceu a pressão por mudanças no tratamento psiquiátrico brasileiro.

A programação inclui oficinas, teatro, rodas de conversa, apresentações culturais e debates sobre os 25 anos da Lei 10.216. Também haverá discussões sobre inclusão social, arte no cuidado terapêutico e os impactos da reforma psiquiátrica brasileira.

A entrada é gratuita. O evento amplia o debate sobre como políticas de acolhimento psicossocial e tratamento em liberdade impactam a vida prática de pacientes e famílias. A experiência de Edson resume essa mudança ao transformar uma história marcada por internação em uma trajetória de arte, família, autonomia e pertencimento.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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