Uma estudante da rede pública estadual do Ceará transformou inteligência artificial, ciência de dados e programação em uma ferramenta de análise da violência contra mulheres e conquistou espaço na principal competição científica pré-universitária do planeta. As informações foram publicadas inicialmente pelo Diário do Nordeste. Aos 16 anos, Yanna Francisca Nogueira Queiroz ficou em 4º lugar na categoria Ciências Sociais e do Comportamento da Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), realizada no Arizona, nos Estados Unidos. O destaque internacional veio com um projeto de IA contra feminicídio desenvolvido ainda no ensino médio.
A pesquisa utiliza análise automatizada de dados para identificar padrões da violência contra mulheres no Ceará, localizar concentrações de casos e ampliar a leitura sobre ocorrências que muitas vezes permanecem fora dos registros oficiais.
Considerada uma espécie de “olimpíada mundial da ciência” para estudantes, a ISEF reúne jovens pesquisadores classificados em feiras afiliadas de mais de 60 países e distribui bolsas, premiações e oportunidades acadêmicas internacionais. O evento concentra projetos ligados à saúde, engenharia, tecnologia, inteligência artificial e ciências sociais.
O reconhecimento ultrapassa a premiação individual. A conquista mostra como estudantes brasileiros começam a utilizar programação, estatística e ferramentas digitais para enfrentar problemas sociais complexos antes mesmo da universidade.
O estudo sobre feminicídio no Ceará propõe uma ferramenta capaz de cruzar indicadores estatísticos, identificar possíveis subnotificações e mapear padrões da violência de gênero no estado. Na prática, a pesquisa tenta responder onde os crimes se concentram, quais mulheres aparecem em maior situação de vulnerabilidade e como o poder público pode agir antes que novos casos aconteçam.
O trabalho ganha relevância em um cenário de crescimento dos feminicídios no Brasil. O país registrou 1.492 casos em 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No Ceará, dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) apontam aumento das ocorrências nos últimos anos.
Sem dados detalhados, parte dos casos pode permanecer invisível para estratégias de prevenção, distribuição de atendimento especializado e formulação de políticas públicas. O projeto também tenta enfrentar um dos principais desafios do combate à violência doméstica: a subnotificação das ocorrências.
O avanço chama atenção porque desmonta duas barreiras históricas: a ideia de que ciência de alto nível estaria restrita às universidades e a percepção de que cidades pequenas teriam menos acesso à inovação tecnológica.
Ainda no ensino médio, Yanna aprendeu programação em Python, ciência de dados e processamento de linguagem natural para desenvolver o sistema de IA contra feminicídio. O projeto utilizou mais de 5 mil notícias para treinar uma ferramenta automatizada de coleta e classificação de informações relacionadas aos crimes contra mulheres.
A iniciação científica permitiu que a estudante tivesse contato com produção acadêmica, análise estatística e métodos de pesquisa ainda durante a educação básica.
IA contra feminicídio aprofunda análise da violência contra mulheres
O trabalho analisou casos registrados entre janeiro de 2022 e junho de 2025 com base em informações da SSPDS, do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) e de notícias policiais.
A partir do cruzamento de dados, o levantamento identificou 174 vítimas no período e traçou um perfil das ocorrências. A maioria dos casos envolveu mulheres negras. As faixas etárias mais atingidas foram de 31 a 50 anos e de 18 a 30 anos. Quase metade dos crimes foi cometida por companheiros ou ex-companheiros, cenário frequentemente associado à violência doméstica.
O estudo também mostrou maior concentração de casos na Região Metropolitana de Fortaleza e indicou relação entre densidade populacional e incidência da violência.
O diferencial da pesquisa está no uso da tecnologia para tornar a leitura dos dados mais precisa. A IA contra feminicídio criada por Yanna automatiza a coleta de informações em textos jornalísticos e transforma os registros em mapas e indicadores capazes de auxiliar análises territoriais.
Na prática, isso pode ajudar a identificar regiões mais vulneráveis, padrões recorrentes e possíveis lacunas nos registros oficiais. O sistema também amplia o monitoramento do feminicídio no Ceará ao reunir informações dispersas em diferentes bases.
Os dados podem auxiliar gestores públicos na definição de áreas prioritárias para ações preventivas, instalação de equipamentos especializados e fortalecimento da rede de proteção às mulheres.
A estudante defende que compreender o comportamento estatístico da violência pode ajudar na formulação de estratégias preventivas e no direcionamento de políticas públicas, inclusive na criação ou expansão de estruturas de atendimento às mulheres.
Interior do Ceará transforma iniciação científica em oportunidade global
A trajetória de Yanna também expõe outro movimento que cresce no Ceará: a consolidação da cultura científica em escolas estaduais.
Moradora de Iracema, município com pouco mais de 13 mil habitantes no Vale do Jaguaribe, ela começou a desenvolver pesquisas aos 14 anos, quando ingressou na rede pública. Desde então, participou de projetos ligados à saúde, meio ambiente e matemática aplicada.
A pesquisa ganhou projeção após a classificação na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), realizada na Universidade de São Paulo (USP). O trabalho foi considerado o melhor projeto do Ceará na categoria e garantiu a vaga para a ISEF.
O percurso evidencia como programas de iniciação científica conseguem abrir caminhos educacionais em regiões afastadas dos grandes centros urbanos. Em cidades pequenas, feiras científicas passaram a funcionar também como mecanismo de acesso a universidades, bolsas acadêmicas e redes internacionais de pesquisa.
Na rotina escolar, as pesquisas são conciliadas com aulas em tempo integral e orientação de professores. A Escola Deputado Joaquim de Figueiredo Correia se tornou referência regional em feiras científicas e já levou estudantes para eventos nacionais e internacionais.
A professora Sebastiana Vicente Bezerra, coorientadora do projeto, afirma que o incentivo à pesquisa ajuda estudantes a desenvolver leitura, escrita, raciocínio analítico e amadurecimento pessoal ainda durante o ensino médio.
O caso também revela um avanço ainda raro no ensino público brasileiro: adolescentes aprendendo programação, estatística e análise automatizada de dados antes do ingresso na universidade. Esse movimento amplia perspectivas profissionais e aproxima jovens de baixa renda de áreas ligadas à tecnologia e à ciência.
IA contra feminicídio: Pesquisa coloca escola pública do Ceará no circuito científico global
O destaque internacional do projeto reforça um cenário que ganha força no Brasil: estudantes da educação básica utilizando ciência aplicada para enfrentar problemas sociais reais.
Enquanto os casos de feminicídio crescem no Ceará, iniciativas como a de Yanna mostram uma tentativa de transformar dados, tecnologia e inteligência artificial em ferramentas concretas de prevenção da violência contra mulheres.
A participação em feiras científicas deixou de representar apenas experiência acadêmica e passou a funcionar como porta de acesso a redes internacionais de inovação, universidades e desenvolvimento tecnológico.
O caso também evidencia o peso do financiamento público nessas trajetórias. Segundo professores envolvidos nos projetos, boa parte dos estudantes depende de apoio da rede estadual para custear viagens, inscrições e participação em competições.
Sem esse suporte, pesquisas produzidas em cidades pequenas dificilmente conseguiriam alcançar eventos internacionais.
Ao chegar ao palco da maior feira científica estudantil do mundo, a estudante cearense levou mais do que um projeto individual. Levou uma demonstração de que ciência, tecnologia e inteligência artificial podem nascer dentro da escola pública brasileira e servir como ferramenta concreta no enfrentamento da violência contra mulheres.