Filme “Surda” quebra barreiras ao premiar a 1ª atriz surda no Goya

O filme Surda transforma a maternidade surda em debate sobre capacitismo, autonomia e acessibilidade cultural. A produção premiada amplia a discussão sobre inclusão no cinema com protagonismo real de uma atriz surda.
Cena do filme Surda mostra casal em cozinha durante narrativa sobre maternidade surda e inclusão no cinema
Filme Surda transformou a maternidade surda em debate sobre capacitismo e rendeu o primeiro Goya para uma atriz surda. (Foto: Divulgação / Surda)

A maternidade surda ganhou espaço raro no cinema internacional com a estreia de Surda nos cinemas brasileiros e ampliou o debate sobre capacitismo, autonomia e acessibilidade cultural. O longa dirigido por Eva Libertad transforma uma experiência frequentemente invisibilizada em discussão pública ao retratar os desafios enfrentados por mães surdas e mulheres com deficiência auditiva diante de preconceitos ainda pouco debatidos socialmente.

Mais do que um drama sobre deficiência, o filme questiona uma lógica social antiga: a ideia de que pessoas surdas precisam ser tuteladas em decisões fundamentais da vida adulta. O debate ultrapassa a comunidade surda porque revela como a sociedade ainda mede a capacidade das pessoas pela deficiência antes de enxergar autonomia, trabalho, maternidade e independência.

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Ao colocar uma mulher surda no centro da narrativa sem recorrer ao estereótipo da superação, a produção rompe um padrão histórico do audiovisual. O impacto vai além da representação e incorpora acessibilidade à própria linguagem cinematográfica, ampliando o debate sobre inclusão audiovisual justamente em um momento de maior cobrança por diversidade real nas telas.

A força do projeto nasce também da relação entre a diretora Eva Libertad e a atriz Miriam Garlo, irmãs na vida real. A conexão entre as duas permitiu construir uma personagem distante das caricaturas frequentemente associadas à deficiência no cinema tradicional.

O debate sobre maternidade surda cresce junto com a pressão por presença real de pessoas com deficiência nas produções culturais europeias e latino-americanas.

Antes de chegar aos cinemas brasileiros, Surda ganhou projeção internacional ao vencer o Prêmio do Público da Mostra Panorama na Berlinale 2025, um dos festivais de cinema mais relevantes do mundo. O reconhecimento ampliou a discussão sobre protagonismo de pessoas surdas no audiovisual contemporâneo.

Por que mães surdas ainda têm a capacidade de cuidar dos filhos questionada

Em Surda, a personagem Angela enfrenta o medo da maternidade enquanto lida com julgamentos constantes sobre sua capacidade de cuidar do filho. O filme evidencia como a deficiência auditiva ainda é usada socialmente para limitar a independência da mulher surda.

Eva Libertad afirma que o medo de não ouvir o choro do bebê acaba tratado como sinal de incapacidade, quando na prática revela mais sobre preconceitos externos do que sobre a maternidade em si.

O longa também amplia o debate sobre capacitismo, termo usado para definir preconceitos estruturais contra pessoas com deficiência. No caso das mães surdas, esse comportamento aparece quando autonomia, competência e independência passam a ser questionadas exclusivamente por causa da deficiência auditiva.

O diferencial do filme está em evitar uma abordagem sentimentalizada. Angela aparece como uma personagem complexa, com inseguranças, contradições e falhas, algo ainda pouco comum quando o audiovisual retrata mães com deficiência auditiva.

Essa escolha altera o eixo da discussão. Em vez de questionar se uma mulher surda pode ser mãe, a narrativa desloca o olhar para o preconceito estrutural que insiste em infantilizar pessoas com deficiência sensorial.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), milhões de brasileiros convivem com algum grau de deficiência auditiva. O debate levantado pelo filme ajuda a ampliar a percepção sobre autonomia e inclusão muito além das telas.

Narrativas mais realistas também influenciam relações familiares, acesso ao mercado de trabalho e a forma como pessoas com deficiência são percebidas socialmente no cotidiano.

Maternidade surda: Protagonismo real muda lógica da representatividade no cinema

O filme marca uma ruptura importante na discussão sobre inclusão nas produções audiovisuais. Eva Libertad afirma que não queria uma atriz ouvinte interpretando uma personagem surda porque isso retiraria autenticidade da experiência retratada.

A escolha de Miriam Garlo para o papel principal ajudou a transformar o longa em referência de protagonismo surdo no cinema europeu. O reconhecimento internacional veio com o prêmio Goya de Melhor Atriz Revelação, conquista inédita para uma mulher surda.

O impacto simbólico dessa vitória ultrapassa a premiação. Ela amplia a pressão sobre a indústria cultural para abrir espaço não apenas para histórias inclusivas, mas também para atores, roteiristas e consultores com deficiência ocupando posições centrais nas produções.

O próprio projeto nasceu de um curta-metragem dirigido por Eva Libertad em 2021. A produção original se tornou a primeira obra em língua de sinais indicada ao Prêmio Goya, principal premiação do cinema espanhol. O dado ajuda a explicar por que Surda passou a ser tratado como marco da representatividade surda no audiovisual europeu.

Embora plataformas de streaming e festivais tenham ampliado recursos acessíveis nos últimos anos, grande parte do mercado audiovisual ainda trata acessibilidade como complemento técnico, e não como parte da experiência narrativa.

A mudança defendida pelo filme também dialoga com uma cobrança crescente do público por representações mais autênticas de pessoas com deficiência, tanto no entretenimento quanto em campanhas publicitárias, escolas e ambientes de trabalho.

Como o cinema ainda exclui pessoas surdas no Brasil

Apesar do avanço recente das políticas de inclusão audiovisual, pessoas surdas ainda enfrentam barreiras frequentes para acessar cinemas, festivais e plataformas de streaming no Brasil. Em muitos casos, recursos de acessibilidade aparecem apenas de forma limitada ou dependem de aplicativos externos.

O debate levantado por Surda amplia a pressão para que produtoras e exibidoras tratem acessibilidade cultural como parte estrutural da experiência cinematográfica e não apenas como adaptação complementar.

Especialistas em inclusão defendem que a presença de profissionais surdos em roteiros, direção, consultoria e atuação ajuda a evitar representações estereotipadas e amplia a autenticidade das narrativas.

Acessibilidade deixa de ser recurso técnico e vira experiência narrativa

Um dos principais diferenciais de Surda está na construção sonora. Em vez de utilizar silêncio absoluto para representar a percepção da protagonista, a equipe trabalhou com vibrações e texturas sonoras para aproximar o público ouvinte da experiência sensorial de Angela.

A decisão altera completamente a experiência do espectador. O objetivo não é observar a surdez “de fora”, mas experimentar parcialmente a forma como a personagem percebe o ambiente ao redor.

A proposta transforma o filme em referência de acessibilidade cultural e cinema acessível contemporâneo. O projeto levou essa lógica para toda a produção ao integrar legendas descritivas, audiodescrição e interpretação em Libras desde a concepção da distribuição.

No Brasil, parte desses recursos poderá ser acessada também pelo aplicativo Conecta, ferramenta utilizada em salas de cinema para ampliar acessibilidade de pessoas com deficiência auditiva e visual durante as sessões.

Eva Libertad defende que acessibilidade precisa nascer junto com o roteiro porque um cinema que exclui parte do público deixa de cumprir sua função coletiva. A discussão acompanha um movimento internacional que busca transformar inclusão em prática estrutural da indústria cultural.

A ampliação desses recursos também impacta o público em geral. Quanto maior o acesso a filmes adaptados, maior a pressão para que cinemas, plataformas e produtoras passem a tratar acessibilidade como padrão e não como exceção.

O que o avanço da maternidade surda no cinema muda na prática

O crescimento de narrativas sobre maternidade surda ajuda a ampliar a percepção pública sobre autonomia, inclusão e direitos culturais. O impacto não fica restrito ao entretenimento.

Quando produções audiovisuais deixam de tratar pessoas com deficiência apenas como figuras inspiracionais, o debate social amadurece. Isso influencia percepção pública, políticas culturais e pressão por maior contratação de profissionais com deficiência no mercado audiovisual.

O caso de Surda também mostra como autenticidade pode gerar relevância internacional. A combinação entre experiência real, protagonismo legítimo e linguagem acessível transformou um drama íntimo em referência cultural com alcance global.

A própria Miriam Garlo defende que pessoas surdas precisam ser vistas além de limitações impostas socialmente. Para a atriz, a comunidade surda possui identidade e formas próprias de comunicação que ainda aparecem pouco no cinema tradicional.

Ao transformar a maternidade surda em experiência coletiva e não em limitação individual, Surda amplia uma discussão que ainda permanece invisível para milhões de brasileiros com deficiência.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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