Davi Ramos alcançou um dos cargos mais prestigiados da dança clássica internacional ao se tornar o primeiro brasileiro no Australian Ballet a assumir o posto de principal dancer, equivalente ao primeiro bailarino da companhia. Aos 25 anos, o carioca criado no Vidigal também virou o primeiro homem negro a ocupar o topo artístico do The Australian Ballet, principal grupo de dança da Austrália.
Fundado em 1962, o The Australian Ballet é considerado uma das companhias mais prestigiadas do hemisfério sul. O grupo mantém temporadas em Sydney e Melbourne, além de turnês internacionais em alguns dos principais palcos da dança clássica.
O anúncio da promoção aconteceu na Sydney Opera House logo após uma apresentação de Romeu e Julieta, em que Davi interpretou o protagonista. A revelação foi feita no palco diante do público e rapidamente transformou a cena em um dos momentos de maior repercussão recente envolvendo um bailarino brasileiro no exterior.
A conquista ganhou dimensão além da dança porque o balé clássico internacional ainda enfrenta críticas pela baixa diversidade racial e social nos cargos centrais das grandes companhias. Durante décadas, o setor foi marcado por padrões estéticos eurocentrados e por estruturas de formação altamente elitizadas, cenário que historicamente limitou o acesso de artistas negros e periféricos às posições de maior prestígio.
Nesse contexto, a ascensão de Davi Ramos, primeiro brasileiro no Australian Ballet, amplia a representatividade brasileira em um espaço que raramente reflete a diversidade social do país.
Nascido na Favela Santa Marta e criado no Vidigal, no Rio de Janeiro, Davi começou no balé aos 12 anos, idade considerada tardia para os padrões da dança clássica profissional. A formação de alto rendimento normalmente exige anos de treinamento técnico, dedicação integral e acesso a escolas especializadas, estrutura distante da realidade da maior parte dos jovens brasileiros das periferias.
Mesmo começando depois de muitos colegas de geração, o bailarino acelerou a preparação com uma rotina intensa de estudos e treinos. Em entrevista à SBS em Português, contou que passava horas diárias tentando compensar o tempo perdido em relação a outros artistas que iniciaram a formação ainda na infância.
A carreira internacional começou após sua entrada no Royal Ballet School, em Londres, uma das instituições mais respeitadas da dança mundial. Depois, integrou o Dutch National Ballet, na Holanda, até chegar ao The Australian Ballet em 2024 já como solista.
Dois anos depois, Davi Ramos alcançou o topo da companhia australiana. O feito é raro porque as grandes instituições internacionais da dança clássica normalmente formam seus principais artistas desde cedo em escolas tradicionais da Europa, Rússia e Estados Unidos, realidade que historicamente reduziu a presença de brasileiros nos cargos mais altos do balé mundial.
Antes de Davi Ramos, poucos brasileiros chegaram ao topo de grandes companhias internacionais, como Thiago Soares no Royal Ballet de Londres e Marcelo Gomes no American Ballet Theatre.
O que significa ser principal dancer no Australian Ballet
O cargo de principal dancer representa o nível mais alto dentro da hierarquia artística de uma companhia de dança. São esses artistas que normalmente assumem os protagonistas das produções mais importantes e passam a representar institucionalmente o grupo nos principais eventos e temporadas internacionais.
Com a promoção, Davi Ramos deve ampliar participações internacionais e assumir novos protagonistas nas próximas temporadas do Australian Ballet. Entre os compromissos previstos estão apresentações em Londres e Hong Kong.
Primeiro brasileiro no Australian Ballet: Vídeo da promoção ampliou repercussão internacional
A repercussão da conquista cresceu após a divulgação do vídeo da promoção nas redes sociais. Nas imagens, Davi aparece emocionado ao receber flores do diretor artístico David Hallberg no palco da Opera House.
Hallberg é um dos nomes mais conhecidos da dança clássica contemporânea e teve passagens como principal bailarino do American Ballet Theatre e do Bolshoi Ballet.
Logo após o anúncio, Davi também abraça a parceira de cena Robyn Hendricks. Depois, explicou que aquele momento simbolizava todas as pessoas que contribuíram para sua trajetória, incluindo familiares e professoras de balé.
A repercussão internacional aumentou porque parte do público passou a associar a conquista à discussão sobre representatividade no balé clássico, tema que ganhou mais espaço nos debates recentes sobre diversidade na dança mundial.
Por que brasileiros raramente chegam ao topo do balé mundial
A ascensão de Davi Ramos acontece em um momento de transformação gradual dentro do balé internacional. Nos últimos anos, grandes companhias passaram a enfrentar pressão por maior diversidade racial e social em seus elencos e cargos de destaque.
Mesmo com mudanças recentes, bailarinos negros ainda ocupam poucos postos centrais nas principais instituições da dança clássica mundial. Além das barreiras históricas de representatividade, especialistas do setor apontam os altos custos de formação e a concentração das escolas mais tradicionais na Europa e nos Estados Unidos como fatores que limitam o acesso de artistas periféricos às grandes companhias.
Ao virar o primeiro brasileiro no Australian Ballet a alcançar o posto máximo da companhia, Davi Ramos amplia a presença brasileira em um espaço historicamente distante da realidade da maioria dos jovens negros e periféricos do país.