Pesquisa transforma hortaliças resistentes ao calor em nova oportunidade agrícola

As primeiras cultivares registradas de PANCs unem adaptação ao calor, pesquisa genética e novas oportunidades para produtores. Veja o que muda para a produção e para o consumo de alimentos.
Folhas da bertalha BRS Tereverde, uma das hortaliças resistentes lançadas pela Embrapa para cultivo em altas temperaturas
Bertalha BRS Tereverde integra as primeiras cultivares registradas de PANCs e se destaca pela adaptação a temperaturas de até 40°C. (Foto: Divulgação Embrapa)

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apresentou na sexta-feira (20/06) as primeiras cultivares registradas de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), criando uma nova alternativa para a produção agrícola em regiões de altas temperaturas. O lançamento reúne a bertalha BRS Tereverde e o caruru BRS Ilekalu, espécies de hortaliças resistentes ao calor desenvolvidas para chegar ao mercado com padrão produtivo validado cientificamente.

A iniciativa beneficia agricultores familiares, produtores de pequena escala e projetos de agricultura urbana. As duas variedades passam a contar com identidade genética definida e recomendaações técnicas de cultivo, condição que favorece a expansão comercial dessas hortaliças e fortalece novas cadeias de produção de alimentos.

O avanço ocorre em um período de busca crescente por plantas adaptadas ao calor. Em diversas regiões brasileiras, temperaturas elevadas afetam o desempenho de folhosas tradicionais, aumentando o interesse por espécies agrícolas resilientes capazes de manter rendimento em condições climáticas mais exigentes.

A medida também pode ampliar a variedade de alimentos disponíveis para consumo, facilitando a chegada de espécies ainda pouco presentes nos supermercados e feiras brasileiras. O lançamento aproxima produtos tradicionalmente cultivados em hortas e quintais de cadeias produtivas mais organizadas e amplia o aproveitamento da biodiversidade agrícola nacional.

Hortaliças resistentes ao calor ganham espaço na produção agrícola

A bertalha BRS Tereverde foi selecionada para manter produtividade mesmo sob temperaturas que podem alcançar 40°C. A característica coloca a cultivar entre as principais opções de hortaliças resistentes ao calor disponíveis para produção comercial e amplia as alternativas para produtores que buscam diversificar sistemas agrícolas em regiões mais quentes.

Segundo a Embrapa, o potencial produtivo varia entre 40 e 60 toneladas por hectare em condições comerciais. O desempenho oferece uma alternativa para períodos em que outras culturas folhosas registram redução de rendimento, favorecendo a continuidade do abastecimento.

PANCs da Embrapa avançam do cultivo informal para o mercado

As Plantas Alimentícias Não Convencionais permaneceram durante anos associadas a hortas domésticas, feiras locais e iniciativas de pequena escala. A chegada de cultivares registradas cria uma base técnica para expansão produtiva mais ampla.

As novas variedades foram desenvolvidas a partir de materiais genéticos preservados pela Embrapa por mais de 20 anos. O lançamento transforma recursos mantidos em coleções de conservação vegetal em cultivares disponíveis para produção comercial, aproximando pesquisas de longo prazo das cadeias produtivas agrícolas.

O caruru BRS Ilekalu foi desenvolvido especificamente para consumo como hortaliça folhosa. Segundo a Embrapa, suas folhas podem atingir 33,8% de proteína, característica que amplia o interesse por aplicações alimentares da espécie e a diferencia entre os materiais avaliados pela instituição.

A formalização dessas variedades também reduz uma das limitações históricas do setor: a escassez de sementes padronizadas para produção comercial em escala. Com material genético definido e orientações técnicas validadas, produtores passam a contar com condições mais favoráveis para fornecer essas espécies a mercados que exigem regularidade de oferta e padrão de qualidade.

Hortaliças resistentes: Agricultura adaptada ao calor cria novas oportunidades no campo

A Embrapa trabalha no desenvolvimento de outras espécies, incluindo vinagreira e almeirão-roxo. A continuidade desse processo indica a construção gradual de um portfólio voltado à diversificação agrícola.

Por exigirem áreas reduzidas de cultivo, muitas PANCs se encaixam na realidade de propriedades menores. Em mercados específicos, essas espécies também alcançam valor agregado superior ao observado em parte das hortaliças convencionais.

A ampliação do número de espécies disponíveis para cultivo também contribui para diversificar a horticultura brasileira, historicamente concentrada em um grupo reduzido de hortaliças comercializadas em larga escala.

Com a chegada das primeiras cultivares registradas, espécies antes restritas a hortas domésticas e mercados locais passam a integrar estratégias de produção comercial, enquanto novas pesquisas com vinagreira e almeirão-roxo ampliam o conjunto de alternativas agrícolas em desenvolvimento.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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