Durante boa parte da vida, Ladislene Gomes Mota acreditou que concursos de beleza não eram feitos para mulheres negras. Aos 41 anos, porém, ela representa João Pinheiro (MG) no Miss Brasil Real, categoria Sênior. Segundo a candidata, foi ao longo dos anos de estudo que passou a acreditar que também poderia disputar um concurso nacional.
Faxineira de uma escola há 20 anos, Ladislene conciliou trabalho, estudos e a rotina familiar até chegar à disputa nacional. Pedagoga, ela concluiu cinco pós-graduações, dois cursos técnicos e atualmente cursa Serviço Social. Segundo a mineira, cada etapa dessa formação contribuiu para que deixasse de enxergar o concurso como um espaço distante.
Criada na comunidade quilombola de Santana do Caatinga, em João Pinheiro, Ladislene conta que cresceu sem se reconhecer nos padrões de beleza mais difundidos. Hoje, afirma que disputar um concurso nacional também representa a oportunidade de mostrar que mulheres negras podem estar onde desejarem.
Educação mudou sua percepção sobre a beleza negra
Ladislene afirma que, durante muitos anos, duvidou da própria beleza por causa do racismo e da falta de representatividade. Segundo ela, foi durante esse processo de formação que passou a olhar para si de outra forma e ganhou confiança para disputar um concurso que antes acreditava não ser destinado a mulheres negras.
“Em vários momentos duvidei da minha própria beleza por causa do racismo. Os padrões divulgados na época raramente valorizavam mulheres negras. Com o tempo, compreendi que a beleza não tem uma única cor, traço ou padrão”, afirmou ao G1.
Para Ladislene, nenhum modelo único consegue representar a beleza das mulheres brasileiras. Ela conta que essa mudança não aconteceu apenas diante do espelho: nasceu do conhecimento, da maturidade e do contato com outras histórias.
Educação fortaleceu o reconhecimento da beleza negra
Ladislene trabalha como faxineira em uma escola há 20 anos, mas nunca permitiu que a profissão definisse os limites de sua trajetória. Enquanto cuidava do ambiente escolar, também construiu o próprio caminho na educação.
“O aprendizado me deu autonomia para construir minha própria trajetória. Hoje não vejo o estudo como algo acabado, mas como um caminho que me mantém em evolução”, afirmou.
Ao estudar, Ladislene também passou a compreender melhor questões relacionadas ao racismo, à representatividade e à valorização da beleza negra. Esse processo ajudou a substituir a insegurança pela consciência de que seus traços e sua origem também merecem espaço e reconhecimento.
Origem quilombola faz parte da história da mineira
Ladislene nasceu na comunidade quilombola de Santana do Caatinga. Filha de Cleonice Maria da Conceição e Admar Gomes dos Santos, ela cresceu sob os cuidados da tia Maria Laura, irmã de sua mãe biológica.
A criação também contou com a presença do avô Ladislau Gomes de Souza e de uma família formada por 14 irmãos. Segundo Ladislene, essa convivência ensinou valores como união, humildade, resistência e fé.
A descendência quilombola tornou-se parte importante da identidade que ela levará ao concurso. Na passarela, a mineira quer representar mulheres negras que ainda enfrentam barreiras para reconhecer a própria beleza e ocupar lugares historicamente negados a elas.
Concurso também representa outras mulheres
Além da disputa pelo título, Ladislene afirma que pretende representar mulheres que trabalham, estudam, cuidam da família e continuam investindo nos próprios sonhos. Casada e mãe de duas filhas, ela considera que a categoria Sênior amplia a presença de mulheres acima dos 40 anos em concursos de beleza.
A candidata também espera incentivar outras mulheres negras a acreditarem que podem disputar oportunidades das quais antes se sentiam excluídas. Para ela, esse processo começa pelo acesso ao conhecimento e pela confiança construída ao longo dos anos de estudo.
A etapa nacional do Miss Brasil Real será realizada entre os dias 28 e 31 de outubro, em Porto Seguro (BA). Independentemente do resultado, Ladislene afirma que sua maior conquista foi deixar de acreditar que concursos de beleza não eram feitos para mulheres negras e perceber que a educação também mudou a forma como enxergava a si mesma.