Durante anos, Lito Sousa usou a aviação para ajudar desconhecidos a entender — e até perder o medo — de avião. Mecânico de aeronaves desde a juventude, ele transformou a experiência dos hangares em vídeos acessíveis e conquistou milhões de pessoas na internet.
Agora, aos 59 anos, os papéis se inverteram. Diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurodegenerativa rara e de rápida progressão, Lito passou a receber apoio da comunidade que construiu ao longo de mais de 15 anos.
A mobilização ganhou dimensão nacional. Seguidores, artistas e integrantes do setor aéreo compartilharam pedidos de ajuda na tentativa de encontrar alternativas experimentais. O Ministério da Saúde também formalizou um pedido para que o brasileiro seja avaliado para um estudo nos Estados Unidos, embora não exista garantia de participação.
Em meio ao tratamento, outro número mostrou o tamanho dessa comunidade: em 28 de agosto, o Aviões e Músicas chegou a 4 milhões de inscritos no YouTube. Lito acompanhou a conquista diretamente do hospital.
Lito Sousa levou a aviação dos hangares para milhões de pessoas
A história de Lito Sousa com a aviação começou muito antes das redes sociais. Ele entrou na Varig aos 19 anos, tornou-se inspetor em menos de dois anos, passou pela Transbrasil e trabalhou durante 25 anos na United Airlines.
Em 2004, criou o blog Aviões e Músicas. Seis anos depois, levou o projeto ao YouTube. Em vez de falar apenas para profissionais, passou a explicar turbulências, motores, ruídos, acidentes e procedimentos de segurança para passageiros comuns.
A fórmula funcionou porque simplificava assuntos técnicos sem tratar o público como especialista. Essa relação ultrapassou as telas: pessoas que tinham medo de avião passaram a procurar Lito em busca de orientação.
Tatá Werneck contou que conseguiu voltar a viajar de avião com a filha depois de conversar com ele. Outros nomes, como Suzanna Freitas e Mariana Godoy, também relataram que suas explicações ajudaram a reduzir o medo de voar.
Aos 53 anos, o mecânico decidiu aprender a pilotar
Mesmo depois de décadas trabalhando perto de aviões, Lito ainda encontrou espaço para começar de novo. Aos 53 anos, decidiu tirar a licença de piloto depois que seguidores questionaram uma explicação dada por ele durante uma transmissão.
A resposta não veio em forma de discussão. Ele transformou a crítica na série “Decola Lito” e mostrou ao público todas as etapas da formação, até realizar o primeiro voo solo em São José dos Campos, no interior de São Paulo.
A experiência reforçou uma característica que ajudou a aproximá-lo do público: Lito não se apresentava apenas como alguém que tinha respostas, mas também como alguém disposto a aprender.
Essa confiança ajuda a explicar a dimensão da reação ao diagnóstico. Depois de anos recorrendo ao mecânico para entender seus medos dentro de um avião, parte desse público passou a usar as próprias redes para tentar ajudá-lo.
Comunidade de Lito Sousa agora tenta ajudá-lo
A doença de Creutzfeldt-Jakob não tem atualmente tratamento aprovado capaz de interromper sua progressão. A família busca acesso a pesquisas experimentais, mas a participação de Lito depende dos critérios médicos e regulatórios de cada estudo.
Nos últimos dias, ele também pediu aos seguidores que continuem assistindo e compartilhando os mais de 3 mil vídeos do canal para ajudar a manter sua equipe durante o afastamento.
É justamente aí que a trajetória de Lito Sousa na aviação encontra o momento atual: o conhecimento compartilhado durante anos formou uma comunidade que agora tenta retribuir. A mobilização pode dar visibilidade ao caso, mas o acesso a qualquer tratamento experimental ainda depende da avaliação dos pesquisadores e dos protocolos dos estudos.