Cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificaram, na quarta-feira (01/07), um conjunto inédito de proteínas do parasita Plasmodium que poderá orientar o desenvolvimento de uma vacina universal para malária, capaz de atuar contra diferentes espécies e em várias fases da infecção.
O estudo foi publicado na revista científica Nature. A equipe encontrou 453 peptídeos derivados de 166 proteínas do parasita, reconhecidos por linfócitos T CD8+, células do sistema imunológico que eliminam células infectadas. O resultado amplia o conjunto de alvos disponíveis para futuras vacinas.
As vacinas existentes oferecem proteção parcial, concentram-se principalmente no Plasmodium falciparum e atuam em uma etapa específica da infecção. A nova descoberta propõe uma estratégia que amplia o alcance da resposta imunológica ao explorar proteínas presentes durante diferentes momentos do ciclo do parasita.
A pesquisa ainda depende de novas validações e ensaios clínicos antes de resultar em um produto disponível. Mesmo assim, fornece uma base científica para acelerar estudos voltados ao desenvolvimento de um imunizante contra malária com cobertura mais abrangente.
Vacina universal para malária reúne alvos presentes em diferentes espécies do parasita
A equipe investigou o papel dos linfócitos T CD8+, em vez de concentrar a análise apenas na produção de anticorpos. Essa estratégia permitiu identificar fragmentos de proteínas apresentados pelas células infectadas e reconhecidos diretamente pelo sistema imunológico.
Segundo a coordenadora do estudo, Caroline Junqueira, da Fiocruz Minas, a maioria desses fragmentos pertence a proteínas essenciais para a sobrevivência do parasita. Como elas permanecem conservadas entre diferentes espécies de Plasmodium, tornam-se candidatas para uma vacina com alcance mais amplo.
Essa característica pode permitir que uma futura vacina contra malária atue tanto na fase em que o parasita se instala no fígado quanto durante sua circulação no sangue, ampliando o potencial de proteção.
Testes mostraram resposta imunológica em humanos e modelos experimentais
Os pesquisadores verificaram que células de pacientes infectados por P. vivax e P. falciparum responderam aos antígenos identificados. A reação também foi confirmada em outras três espécies do parasita, incluindo aquelas que infectam primatas e camundongos.
Os experimentos envolveram humanos naturalmente infectados, pessoas submetidas à infecção experimental, camundongos e primatas. Em modelos animais, alguns dos alvos avaliados reduziram a carga parasitária, resultado compatível com um efeito protetor.
A observação de respostas em diferentes hospedeiros e espécies reforça o potencial desses alvos para futuras pesquisas, embora o desenvolvimento da vacina ainda exija novas etapas de validação.
Descoberta oferece nova base para pesquisas sobre a vacina universal para malária
Há mais de cinco décadas, pesquisadores procuram desenvolver vacinas capazes de oferecer proteção ampla contra a doença. Os imunizantes aprovados até agora apresentam eficácia limitada e tendem a perder parte da proteção ao longo do tempo.
Os achados publicados pela Fiocruz oferecem uma alternativa baseada em proteínas compartilhadas pelo parasita durante seu ciclo de vida. Esse conjunto de alvos também responde a uma demanda da Organização Mundial da Saúde (OMS) por estratégias que cubram diferentes fases da infecção.
O estudo não representa uma vacina pronta, mas entrega um mapa inédito de alvos imunológicos que poderá orientar grupos de pesquisa no desenvolvimento de uma futura vacina universal para malária com proteção mais abrangente contra a doença.
