Proteção digital das mulheres obriga plataformas a remover conteúdo íntimo em até 2 horas

O governo federal anunciou novas medidas para ampliar a proteção digital das mulheres, endurecer punições contra agressores e acelerar medidas protetivas. As ações atingem plataformas digitais, crimes virtuais, deepfakes sexuais e violência online contra vítimas.
Lula anuncia medidas de proteção digital das mulheres contra violência online e deepfakes durante cerimônia no Palácio do Planalto
Governo federal anuncia novas medidas de proteção digital das mulheres, combate à violência online e responsabilização de agressores. (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)

A proteção digital das mulheres passou a ocupar posição mais estratégica nas políticas públicas brasileiras após o governo federal anunciar novas medidas para combater violência online, acelerar medidas protetivas e ampliar a responsabilização de agressores. O pacote assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quarta-feira (20/05) atinge diretamente redes sociais, aplicativos, crimes virtuais e mecanismos de proteção às vítimas.

As novas regras representam uma mudança importante porque o enfrentamento à violência contra mulheres deixa de se concentrar apenas no ambiente doméstico e passa a alcançar também conteúdos produzidos com inteligência artificial, incluindo deepfakes sexuais e ataques praticados no ambiente digital.

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O avanço ocorre em um momento de crescimento dos crimes digitais contra mulheres, especialmente casos de exposição íntima, perseguição online, assédio coordenado e divulgação de imagens falsas produzidas por inteligência artificial.

Relatórios internacionais de segurança digital apontam que a maior parte dos deepfakes identificados atualmente envolve conteúdo sexual não consentido, tendo mulheres entre as principais vítimas desse tipo de violência virtual. O avanço acelerado da inteligência artificial generativa ampliou a preocupação global sobre o uso criminoso dessas ferramentas.

Além do endurecimento contra agressores, o governo aposta em resposta mais rápida do Estado e maior pressão sobre empresas de tecnologia para remover conteúdos ilegais e reduzir danos causados às vítimas.

As medidas fazem parte do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, criado para integrar ações do Executivo, Congresso Nacional e Judiciário no combate à violência contra mulheres.

Proteção digital das mulheres: Plataformas terão obrigação de agir rapidamente contra violência online

Um dos principais pontos das medidas é o decreto que cria novas exigências para plataformas digitais em casos de violência contra mulheres na internet.

As empresas passam a ter obrigação de agir com rapidez para conter conteúdos relacionados a:

  • exposição íntima sem consentimento;
  • perseguição virtual;
  • assédio coordenado;
  • ameaças;
  • divulgação de imagens falsas produzidas por inteligência artificial.

O decreto estabelece que conteúdos íntimos divulgados sem autorização deverão ser removidos em até duas horas após a denúncia da vítima.

A medida tenta responder a uma das maiores críticas feitas por vítimas e especialistas nos últimos anos: a lentidão das plataformas diante da circulação de imagens íntimas e campanhas de humilhação online.

Outro ponto relevante é a exigência de canais permanentes e simplificados de denúncia, além da obrigação de preservar provas para investigações policiais e judiciais.

Os canais também deverão informar de maneira clara o Ligue 180, serviço nacional de atendimento e orientação a mulheres vítimas de violência.

A proteção das mulheres na internet também passa a incorporar oficialmente o enfrentamento às montagens íntimas falsas produzidas por inteligência artificial, tema que ganhou escala mundial nos últimos anos.

Na prática, o governo amplia mecanismos para combater violência de gênero em ambientes digitais e atualizar a resposta legal diante da expansão dos crimes virtuais.

Cadastro nacional amplia monitoramento de agressores

Outra medida anunciada foi a criação do Cadastro Nacional de Agressores.

O banco de dados reunirá informações de condenados por crimes como:

  • feminicídio;
  • estupro;
  • perseguição;
  • violência psicológica;
  • assédio sexual;
  • divulgação de conteúdo íntimo;
  • importunação sexual.

As informações poderão ser acessadas por forças de segurança de todo o país.

A proposta busca ampliar integração entre estados e acelerar identificação de reincidentes, especialmente em casos de violência doméstica e ameaças continuadas.

O cadastro também reforça a estratégia de responsabilização permanente dos agressores, tema que ganhou força após sucessivos casos de feminicídio envolvendo autores já denunciados anteriormente.

Medidas protetivas ficam mais rápidas e menos burocráticas

O governo também anunciou mudanças para ampliar a proteção às vítimas de violência doméstica e violência digital contra mulheres.

As novas regras ampliam hipóteses de afastamento do agressor do convívio com a mulher, incluindo violência psicológica, moral e patrimonial.

A legislação também passa a alcançar situações de “vingança pornográfica”, divulgação de informações falsas e exposição pública da intimidade da vítima.

Outro eixo importante é a redução da burocracia para acelerar decisões judiciais.

Segundo dados apresentados no evento:

  • 53% das medidas protetivas já são analisadas no mesmo dia;
  • 90% recebem decisão em até dois dias.

Os números mostram avanço na velocidade de resposta do Judiciário, uma das principais demandas históricas de vítimas e organizações de defesa dos direitos das mulheres.

O pacote também prevê possibilidade de transferência de agressores para outros presídios quando houver continuidade de ameaças ou violência contra vítimas e familiares.

Proteção digital das mulheres: Governo tenta ampliar mudança cultural sobre violência contra mulheres

Durante o evento, Lula defendeu que o combate ao machismo e à violência contra mulheres também seja tratado dentro das escolas.

O presidente afirmou que a violência não deve ser vista apenas como problema individual da vítima, mas como questão social que exige participação coletiva.

A fala reforça uma linha adotada pelo pacto nacional: enfrentar o feminicídio não apenas com punição, mas também com prevenção e mudança cultural.

Segundo o governo, cerca de 70% das agressões contra mulheres acontecem dentro de casa, dado que reforça a dimensão estrutural do problema no país.

O tamanho da preocupação aumenta em um país com forte uso de redes sociais e circulação intensa de conteúdo digital, cenário que acelera a disseminação de ataques virtuais, perseguições online e exposição íntima sem consentimento.

A estratégia combina punição mais rígida, resposta judicial mais rápida, pressão sobre empresas de tecnologia e ampliação das ações de prevenção à violência online contra mulheres.

A ampliação da segurança digital das mulheres coloca o Brasil em um movimento internacional de atualização das legislações diante do crescimento de crimes virtuais e do uso abusivo da inteligência artificial contra mulheres.

Em um cenário de expansão das redes sociais e dos ataques digitais, temas como deepfakes sexuais, exposição íntima sem consentimento e responsabilização das plataformas tendem a ocupar espaço cada vez maior nas políticas de segurança pública e direitos digitais no país.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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