O combate ao crime organizado na Amazônia entrou em uma nova fase com o lançamento do Programa Território Seguro, Amazônia Soberana, iniciativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) que reúne repressão qualificada, inteligência policial, proteção territorial e inclusão social em áreas estratégicas para o narcotráfico, crimes ambientais e atuação de facções criminosas.
Com investimento de R$ 209 milhões, o programa atuará inicialmente em 42 municípios de seis estados da Amazônia Legal e da faixa de fronteira. A proposta amplia ações contra organizações criminosas em regiões afetadas pelo tráfico de drogas, garimpo ilegal, lavagem de dinheiro e violência armada.
O novo programa de segurança na Amazônia Legal também busca reduzir o aliciamento de jovens por facções, fortalecer a presença do Estado em comunidades indígenas e tradicionais e ampliar alternativas econômicas sustentáveis em áreas pressionadas pelas economias ilegais.
A iniciativa reforça uma mudança na estratégia federal para a região: unir segurança pública, soberania territorial, proteção ambiental e desenvolvimento sustentável no enfrentamento às redes criminosas que avançaram sobre áreas isoladas da floresta.
Amazônia virou rota estratégica do narcotráfico internacional
O programa parte de um diagnóstico que vem preocupando autoridades e especialistas: o crime organizado avançou na Amazônia aproveitando regiões historicamente marcadas pela baixa presença do Estado e pela posição estratégica das fronteiras brasileiras.
A Amazônia Legal faz divisa com países que concentram grandes rotas internacionais de cocaína na América do Sul. A combinação entre rios extensos, áreas de floresta de difícil fiscalização e fronteiras amplas transformou a região em um corredor logístico do narcotráfico e do contrabando internacional.
Áreas próximas às fronteiras com Peru, Colômbia e Bolívia passaram a ser monitoradas com mais atenção pelas forças de segurança devido ao aumento da circulação de drogas, armas e ouro ilegal. O avanço dessas rotas também ampliou a pressão sobre territórios indígenas, comunidades tradicionais e regiões atingidas por garimpo ilegal e crimes ambientais.
Nos últimos anos, facções ampliaram atuação em rotas fluviais e áreas isoladas usadas pelo tráfico internacional. O enfrentamento às organizações criminosas agora passa a incluir inteligência territorial, monitoramento de rotas ilegais e descapitalização financeira das redes criminosas.
Segundo o MJSP, as ações de repressão serão acompanhadas por políticas de prevenção e acesso a direitos, numa tentativa de reduzir o recrutamento de jovens pelas facções.
Combate ao crime organizado na Amazônia: Segurança terá tecnologia e cooperação internacional
O programa prevê uso ampliado de tecnologia no combate ao narcotráfico na Amazônia e na proteção das fronteiras brasileiras.
A atuação contará com monitoramento estratégico, análise de inteligência e cooperação entre forças estaduais, federais e organismos internacionais. O plano inclui força-tarefa com a Interpol para reforçar investigações sobre organizações criminosas que atuam em rotas internacionais.
A coordenação das ações ficará sob responsabilidade do Centro de Cooperação Policial Internacional da Polícia Federal (PF).
O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, afirmou que as facções atuam hoje em rede e aproveitam principalmente a estrutura logística da região amazônica, incluindo áreas portuárias usadas pelo tráfico internacional.
Já o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, destacou que o enfrentamento às estruturas criminosas terá foco na descapitalização financeira das facções. Segundo ele, operações da PF retiraram R$ 10 bilhões do crime organizado apenas no último ano.
A estratégia busca atingir a base financeira das organizações criminosas, que dependem de lavagem de dinheiro e redes clandestinas para manter operações de tráfico, armas e mineração ilegal.
O governo também pretende ampliar a cooperação entre forças de segurança para impedir que organizações criminosas utilizem fronteiras estaduais como áreas de fuga e reorganização.
Desenvolvimento sustentável passa a integrar estratégia de segurança
Um dos principais diferenciais do Programa Amazônia Soberana é conectar segurança pública, geração de renda e fortalecimento de economias legais.
O programa prevê incentivo à inclusão produtiva e ao desenvolvimento sustentável na Amazônia, principalmente em regiões sob pressão de atividades ilegais ligadas ao tráfico, garimpo clandestino e exploração ambiental.
A proposta busca ampliar alternativas econômicas em áreas pressionadas pelo crime organizado, reduzindo a dependência financeira de populações vulneráveis em relação às economias ilegais.
A secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos, Marta Machado, afirmou que a Amazônia historicamente foi tratada por políticas fragmentadas, separando segurança pública, proteção ambiental e desenvolvimento econômico.
Segundo ela, o novo modelo tenta integrar essas áreas para enfrentar problemas que passaram a atuar de forma conectada no território amazônico.
A nova estratégia também reforça a visão de que a proteção da Amazônia envolve soberania nacional, presença permanente do Estado e controle territorial em regiões estratégicas para o Brasil.
Combate ao crime organizado na Amazônia: Plano amplia pressão sobre garimpo ilegal e facções
Durante o lançamento do programa, o governo federal também apresentou o balanço do Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Amas), criado para ampliar ações de combate aos crimes ambientais na Amazônia e fortalecer o enfrentamento às organizações criminosas nas regiões de fronteira.
As metas previstas para 2026 incluem:
- controle estratégico da BR-319;
- combate ao garimpo ilegal;
- repressão à grilagem;
- enfrentamento às queimadas criminosas;
- integração dos planos operacionais estaduais;
- fortalecimento das ações contra facções na Amazônia e no Pantanal.
A BR-319, que liga Manaus ao restante do país por via terrestre, passou a ser tratada como eixo estratégico para monitoramento logístico, circulação econômica e combate a crimes ambientais e rotas ilegais.
O evento também marcou o lançamento do Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado em Territórios Indígenas (IVCO-TI), ferramenta desenvolvida em parceria com organismos internacionais para identificar áreas mais expostas à atuação de redes criminosas.
A expectativa do governo é ampliar a capacidade de resposta do Estado em regiões consideradas estratégicas para o narcotráfico, crimes ambientais e circulação de organizações criminosas transnacionais.