A migração de baleias-jubarte entre Brasil e Austrália está ajudando cientistas a entender como os oceanos e a vida marinha podem estar se adaptando às mudanças climáticas. O deslocamento superior a 15 mil quilômetros, distância maior que o trajeto aéreo entre Sydney e Londres, estabeleceu um novo recorde mundial documentado para a espécie e ampliou debates sobre biodiversidade marinha, adaptação ambiental e novas rotas migratórias dos grandes mamíferos oceânicos.
A descoberta foi publicada na revista científica Royal Society Open Science e reúne análises feitas por pesquisadores internacionais ao longo de quatro décadas. O estudo sugere que o comportamento migratório das jubartes pode ser menos previsível e mais adaptável do que a ciência acreditava até agora.
As baleias-jubarte costumam seguir trajetos relativamente estáveis entre áreas de reprodução e alimentação, aprendidos ainda nos primeiros anos de vida. Por isso, a travessia oceânica entre o litoral brasileiro e o leste da Austrália chamou atenção da comunidade científica internacional.
Uma das jubartes analisadas foi fotografada em 2003 no Banco dos Abrolhos, na Bahia, principal área de reprodução da espécie no Brasil e considerado o maior berçário de baleias-jubarte do Atlântico Sul Ocidental. Todos os anos, milhares de animais passam pela região entre julho e novembro durante o período reprodutivo.
Mais de vinte anos depois, o mesmo animal reapareceu em Hervey Bay, na Austrália, após uma jornada estimada em 15,1 mil quilômetros.
Outra baleia identificada pelos pesquisadores foi registrada inicialmente na Austrália em 2007 e localizada anos depois na costa de São Paulo, em um deslocamento calculado em aproximadamente 14,2 mil quilômetros em mar aberto.
Migração de baleias-jubarte pode indicar adaptação ambiental
Os cientistas afirmam que deslocamentos dessa magnitude são extremamente raros. Entre quase 20 mil baleias catalogadas em mais de 40 anos de monitoramento, apenas dois animais foram identificados realizando conexões entre as populações reprodutivas do Brasil e da Austrália.
Apesar de incomuns, essas travessias podem ter papel importante para a sobrevivência da espécie. A pesquisa indica que baleias migratórias que circulam entre diferentes populações ajudam a ampliar a diversidade genética, fortalecendo a capacidade de adaptação dos animais.
A hipótese ganha ainda mais relevância diante das mudanças climáticas no Oceano Antártico, região onde as jubartes costumam se alimentar. Alterações no gelo marinho e na distribuição do krill antártico, principal alimento da espécie, vêm reorganizando ecossistemas marinhos e podem influenciar diretamente as rotas migratórias.
Os autores do estudo avaliam que mudanças ambientais e alterações na disponibilidade de alimento podem tornar mais frequentes movimentos antes considerados excepcionais.
A pesquisadora Vanessa Pirotta destacou que o caso demonstra como ainda existem lacunas importantes sobre o comportamento das baleias-jubarte. Os registros também podem ajudar cientistas a entender como espécies marinhas estão reagindo às alterações climáticas.
Travessias raras podem fortalecer a diversidade genética das jubartes
Além da distância recorde, o estudo trouxe outra descoberta relevante para a conservação marinha. Migração de baleias-jubarte que atravessam oceanos podem contribuir para o intercâmbio genético entre populações separadas por milhares de quilômetros.
Segundo os autores da pesquisa, esses deslocamentos ajudam a evitar isolamento genético e podem até influenciar comportamentos culturais da espécie, como padrões de canto que se espalham entre diferentes grupos ao redor do planeta.
Pesquisas anteriores já mostraram que o canto das jubartes consegue circular entre populações distantes, funcionando como uma espécie de transmissão cultural entre grupos separados por oceanos. Para cientistas, isso reforça o alto nível de comunicação e adaptação social desses mamíferos marinhos.
A chamada hipótese da “Troca no Oceano Antártico” ganhou força com os novos registros. A teoria sugere que baleias de diferentes regiões se encontram em áreas compartilhadas de alimentação na Antártica e acabam adotando novas rotas migratórias ao retornar para reprodução.
Isso significa que alterações ambientais em uma única região oceânica podem gerar impactos globais sobre espécies altamente migratórias.
Inteligência artificial ajudou cientistas a localizar baleias entre continentes
A identificação dos animais só foi possível graças ao uso de inteligência artificial e monitoramento colaborativo internacional. Os pesquisadores analisaram 19.283 fotografias das caudas das baleias, conhecidas como “flukes”, registradas entre 1984 e 2025.
As marcas presentes na parte inferior das caudas funcionam como impressões digitais naturais. Cada baleia possui padrões únicos de pigmentação e cicatrizes, permitindo identificação individual mesmo após décadas.
As imagens foram processadas pela plataforma Happywhale, sistema que utiliza IA para comparar automaticamente os padrões visuais das jubartes em um mecanismo semelhante ao reconhecimento facial humano.
O estudo mostra como tecnologia, ciência cidadã e compartilhamento internacional de dados estão transformando a conservação da biodiversidade oceânica. Parte das imagens utilizadas na pesquisa foi enviada por turistas, fotógrafos e observadores de baleias de diferentes países.
A pesquisadora Stephanie Stack afirmou que a descoberta reforça a necessidade de proteção conjunta para espécies migratórias que atravessam oceanos e dependem de ecossistemas conectados para sobreviver.
Baleias também ajudam no equilíbrio dos oceanos
A relevância das jubartes vai além da biodiversidade marinha. Estudos internacionais mostram que baleias desempenham papel importante no equilíbrio dos oceanos ao redistribuir nutrientes essenciais para cadeias alimentares marinhas.
Pesquisas também indicam que esses grandes mamíferos ajudam em processos naturais ligados ao carbono nos oceanos, fator considerado relevante para o equilíbrio climático global.
Para especialistas, compreender o comportamento migratório das baleias-jubarte pode ajudar cientistas a identificar impactos ambientais mais amplos sobre os ecossistemas marinhos nas próximas décadas.
Migração de baleias-jubarte: O que a descoberta muda para a ciência dos oceanos
A migração de baleias-jubarte entre Brasil e Austrália amplia o entendimento científico sobre conectividade marinha e comportamento migratório animal. O estudo sugere que algumas populações podem ser menos isoladas do que se imaginava anteriormente.
Para especialistas, isso altera discussões sobre conservação internacional, monitoramento climático e proteção de rotas oceânicas.
A descoberta também fortalece pesquisas sobre adaptação ambiental de grandes mamíferos marinhos. Em um cenário de aquecimento global e transformação dos ecossistemas polares, entender o comportamento das baleias pode ajudar cientistas a prever impactos futuros sobre a biodiversidade marinha.
A travessia inédita das jubartes mostra que a migração de baleias-jubarte ainda guarda respostas importantes sobre o futuro dos oceanos e os efeitos das mudanças climáticas na vida marinha.