Pensão para órfãos do feminicídio começa a valer e amplia apoio a famílias após a perda da mãe

A pensão para órfãos do feminicídio entrou em vigor e garante um salário mínimo a filhos e dependentes de mulheres vítimas do crime em situação de vulnerabilidade social.
Manifestação em defesa dos direitos das mulheres destaca a importância da pensão para órfãos do feminicídio e da proteção social a crianças afetadas pela violência de gênero.
A pensão para órfãos do feminicídio busca garantir renda mínima para filhos e dependentes de mulheres vítimas de feminicídio em situação de vulnerabilidade social. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Filhos e dependentes de mulheres vítimas de feminicídio passaram a ter acesso, a partir da sexta-feira (29/05), à pensão especial regulamentada pelo Governo Federal. O benefício, pensão para órfãos do feminicídio, pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), garante o equivalente a um salário mínimo mensal para crianças e adolescentes de até 18 anos que estejam em situação de vulnerabilidade social.

A mudança afeta diretamente famílias que assumem a guarda de crianças após a morte da mãe em casos de feminicídio. Sem esse suporte, muitos parentes precisam reorganizar o orçamento para custear despesas básicas como alimentação, transporte, material escolar e cuidados de saúde. A pensão cria uma fonte mínima de renda para ajudar a reduzir o impacto financeiro provocado pela perda repentina da principal referência familiar dessas crianças.

Apoio

Mais do que uma transferência de renda, a medida busca reduzir os impactos econômicos deixados pelo feminicídio. Além da perda afetiva, muitas crianças passam a enfrentar insegurança financeira após a morte da mãe. Ao garantir uma renda mínima, o Estado reconhece que os filhos das vítimas também sofrem consequências diretas do crime e precisam de apoio para preservar direitos básicos.

A regulamentação coloca em funcionamento uma lei criada para atender crianças e adolescentes que perderam suas mães em casos de feminicídio.

A necessidade de uma política específica para esse público acompanha um cenário persistente de violência contra a mulher no país. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que o Brasil registra mais de mil feminicídios por ano, um fenômeno que deixa milhares de crianças e adolescentes expostos a perdas afetivas e dificuldades econômicas. Nesse contexto, a pensão especial surge como uma resposta voltada não apenas à assistência financeira, mas também à garantia de condições mínimas para o desenvolvimento desses jovens.

Como funciona a pensão para órfãos do feminicídio

A regulamentação do Decreto nº 12.636/2025 coloca em prática a Lei nº 14.717/2023, criada para atender crianças e adolescentes que perderam a mãe em decorrência de feminicídio.

Têm direito ao benefício os filhos e dependentes menores de 18 anos cuja renda familiar por pessoa seja igual ou inferior a um quarto do salário mínimo. Além dos filhos biológicos, a legislação contempla enteados, menores sob guarda e tutelados que comprovem dependência econômica em relação à vítima.

A solicitação pode ser feita pelo site ou aplicativo Meu INSS, pelo telefone 135 ou em unidades de atendimento do instituto.

Segundo o governo federal, a medida busca oferecer condições mínimas de estabilidade financeira para famílias que passam a assumir a guarda dessas crianças após a morte da mãe.

Pensão para órfãos do feminicídio: Quantas crianças podem ser afetadas pelo crime

Embora o Brasil ainda não possua um levantamento nacional consolidado sobre o número de órfãos do feminicídio, os registros anuais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ajudam a dimensionar a relevância do problema. Com mais de mil feminicídios registrados por ano, milhares de crianças e adolescentes podem ser impactados direta ou indiretamente pela perda da mãe e pelas mudanças familiares decorrentes do crime.

Essa realidade ajuda a explicar por que a criação de um benefício para órfãos do feminicídio passou a ser tratada como uma medida de proteção social voltada à infância e à redução da vulnerabilidade econômica.

Como a medida pode reduzir situações de vulnerabilidade

A criação da pensão especial responde a um problema social frequentemente observado após casos de feminicídio: a interrupção brusca da renda familiar.

Em muitas situações, avós, tios ou outros parentes assumem a responsabilidade pela criação dos menores sem planejamento financeiro prévio. O resultado pode ser o aumento das dificuldades para garantir alimentação, moradia, transporte, acesso à educação e acompanhamento de saúde.

Especialistas em assistência social apontam que, após um feminicídio, é comum que avós ou outros familiares assumam de forma repentina a guarda das crianças. Além do impacto emocional, essa mudança costuma gerar novas despesas com alimentação, transporte, material escolar, vestuário e cuidados de saúde.

Ao criar uma fonte de renda contínua, a política pública busca reduzir os riscos de agravamento da pobreza entre crianças atingidas pela violência doméstica extrema.

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou que o benefício tem o objetivo de assegurar proteção e segurança aos órfãos do feminicídio, garantindo recursos para necessidades básicas independentemente do arranjo familiar que passe a acolher a criança.

Quais documentos são necessários

Para solicitar a pensão especial, o representante legal deverá apresentar documento oficial de identificação da criança ou adolescente ou, quando necessário, a certidão de nascimento.

Também será preciso comprovar a relação entre a morte da mulher e o crime de feminicídio por meio de documentos como:

  • Auto de prisão em flagrante;
  • Denúncia apresentada pelo Ministério Público;
  • Conclusão de inquérito policial;
  • Decisão judicial relacionada ao caso.

Nos casos de dependentes que não sejam filhos biológicos, será exigida a apresentação do termo de guarda ou tutela.

O cadastro da família no Cadastro Único (CadÚnico) deve permanecer atualizado, com renovação periódica para manutenção do benefício.

Regras de pagamento e proteção às crianças

A pensão corresponde a um salário mínimo mensal. Quando houver mais de um dependente habilitado, o valor será dividido igualmente entre os beneficiários.

O pagamento passa a valer a partir da data do requerimento e não possui efeito retroativo à data do crime. O benefício também não inclui décimo terceiro salário.

Uma das principais salvaguardas da legislação é a proibição de que o autor, coautor ou participante do feminicídio represente a criança no pedido ou administre os recursos recebidos em nome dela.

A regra busca garantir que o recurso chegue efetivamente aos menores atingidos pela violência e seja utilizado em benefício deles.

Pensão para órfãos do feminicídio: O que muda para as famílias

A pensão para órfãos do feminicídio não elimina as consequências emocionais provocadas pela perda da mãe, mas oferece um suporte financeiro para crianças e adolescentes que passam a conviver com uma ruptura familiar repentina.

Para as famílias que passam a cuidar dessas crianças, o benefício representa mais do que uma transferência de renda. Ele oferece uma fonte de recursos em um momento de reorganização familiar marcado pela perda e pela insegurança financeira.

Ao reconhecer que os efeitos do feminicídio atingem também os filhos das vítimas, a medida amplia a resposta do Estado e busca evitar que a violência resulte em um ciclo prolongado de vulnerabilidade social, pobreza e exclusão.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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