Advogado com AME ouviu do pai ‘se enxerga’, superou preconceito e hoje lidera escritório

Jelres Freitas ouviu do pai que não conseguiria seguir no Direito. Hoje, o advogado com AME mantém escritório próprio e participa pessoalmente das audiências.
Advogado com AME Jelres Freitas em ambiente de trabalho.
Jelres Freitas, advogado com AME, superou barreiras de acessibilidade e hoje comanda o próprio escritório em Sumaré (SP). (Foto: reprodução / redes sociais)

Quando Jelres Freitas contou ao pai que queria estudar Direito, ouviu que precisava “se enxergar”. O pai chegou a lhe dar um espelho e argumentou que, se o filho não conseguia segurar um copo de água, também não conseguiria lidar com os livros da faculdade. Anos depois, o advogado, diagnosticado com atrofia muscular espinhal (AME), transformou justamente aquela profissão desacreditada dentro de casa em sua rotina de trabalho.

Apoio

Hoje, aos 31 anos, Jelres vive em Sumaré, no interior de São Paulo, e mantém o próprio escritório. A estrutura reúne oito colaboradores diretos e outros oito profissionais parceiros.

Jelres movimenta o pescoço e alguns dedos. Para trabalhar, usa um mouse adaptado, com o qual escreve, acompanha processos e participa de reuniões. A equipe o auxilia a posicionar a mão e a preparar o computador, mas é ele quem conduz o trabalho jurídico e participa das audiências.

O espelho dado pelo pai continua na porta do quarto, hoje quebrado e menor. Com o tempo, segundo Jelres, a relação entre os dois mudou: ao perceber que o filho seguia decidido, o pai passou a apoiá-lo.

Advogado com AME enfrentou barreiras desde a escola

O caminho até o escritório começou com obstáculos bem antes da faculdade. Jelres entrou na escola aos 8 anos. Como o prédio não tinha rampa, uma sala precisou ser improvisada para que ele acompanhasse as aulas.

Na graduação em Direito, a falta de acessibilidade apareceu novamente. O transporte o deixava em um bloco diferente, e o trajeto até a sala exigia escadas ou um percurso mais longo. Jelres cobrou adaptações da instituição, dizendo que poderia ser o primeiro aluno naquela situação, mas não seria o último.

A atuação pela acessibilidade continuou depois da formação. Em 2024, durante um fórum da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), Jelres relatou dificuldades enfrentadas no próprio Judiciário e defendeu mudanças nos espaços usados por profissionais com deficiência.

Escritório próprio tornou autonomia profissional concreta

O site do escritório informa que a banca foi fundada em 2019 e hoje trabalha em áreas como Direito Cível, Médico, Trabalhista, Previdenciário, Penal e Empresarial. Entre os atendimentos estão ações relacionadas ao acesso a medicamentos e tratamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e por planos de saúde.

A trajetória profissional também se cruza com sua experiência como paciente. Ainda estudante, Jelres participou de mobilizações pelo acesso ao medicamento nusinersena, conhecido comercialmente como Spinraza. Em 2023, a Câmara Municipal de Sumaré registrou sua participação em discussões sobre acessibilidade, pessoas com deficiência e doenças raras.

Para o advogado com AME, a autonomia profissional não significa dispensar ajuda para todas as tarefas. Ela aparece na possibilidade de exercer a profissão, conduzir os próprios casos e comparecer às audiências. O menino que ouviu que não daria conta da faculdade tornou-se advogado, abriu o próprio escritório e segue entrando nos fóruns como responsável pelos processos que assumiu.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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