Categoria Inovação

Como o veneno da jararaca está ajudando cientistas a entender melhor as células

O veneno da jararaca abriga uma proteína que desafia modelos clássicos da biologia. Pesquisas brasileiras mostram como ela ajuda a explicar interações celulares complexas.

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O veneno da jararaca, conhecido por seu papel na defesa do animal, passou a ocupar espaço relevante em laboratórios de pesquisa no Brasil. Nesse contexto, estudos com veneno permitiram identificar uma proteína capaz de ampliar a compreensão sobre como as células se organizam. Além disso, pesquisas com essa toxina da jararaca ajudam a explicar como ocorre a comunicação celular em ambientes complexos e cheios de moléculas.

O que torna o veneno da jararaca especial para a ciência

A proteína chamada jarastatina, extraída do veneno da jararaca (Bothrops jararaca), chama atenção por se ligar a diferentes tipos de células. Entre elas, estão células do sistema imune, do sangue e também aquelas associadas ao câncer de mama. Segundo pesquisadores do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), essa característica faz do veneno de jararaca um objeto relevante de estudo científico. Essas investigações, por sua vez, envolvem possíveis aplicações em inflamação, trombose e oncologia.

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Além do alcance biológico, o modo de funcionamento da jarastatina, proteína presente no veneno da jararaca, também desperta interesse. Em vez de seguir a organização clássica das proteínas, ela mantém regiões que evitam contato com a água expostas na superfície. Ainda assim, permanece estável e solúvel. Esse comportamento, portanto, desafia explicações tradicionais da biologia molecular associadas a toxinas de origem animal.

Água, superfície e interações celulares

Para entender esse comportamento incomum do veneno da jararaca, equipes do IBqM/UFRJ, do Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem e do INCT de Biologia Estrutural e Bioimagem recorreram a técnicas avançadas. Entre elas, está a Ressonância Magnética Nuclear. Como resultado, um estudo publicado no Journal of Biological Chemistry mostrou que a água exerce papel central na estabilidade da jarastatina, proteína isolada do veneno de cobra brasileira.

Clusters hidrofóbicos e reconhecimento molecular

Os pesquisadores observaram que partes hidrofóbicas da proteína do veneno da jararaca se agrupam na superfície. Dessa forma, formam os chamados clusters hidrofóbicos. Essas estruturas ficam protegidas por regiões hidrofílicas e por uma camada organizada de água. Com isso, facilitam encontros temporários entre proteínas. De acordo com Fabio C. L. Almeida, esses contatos auxiliam o reconhecimento molecular em ambientes celulares densos.

Esse mesmo mecanismo, observado a partir do estudo do veneno da jararaca, também ajuda a explicar a formação de condensados proteicos. Essas estruturas funcionam como organelas sem membrana e apresentam comportamento dinâmico. Ao concentrar moléculas específicas em pontos definidos da célula, elas organizam processos biológicos no tempo e no espaço.

Assim, ao revelar que interações superficiais e transitórias sustentam funções complexas, a pesquisa com o veneno da jararaca reforça como a biodiversidade brasileira contribui para respostas científicas que seguem em construção contínua.