Categoria Inovação

“Impressões palmares” podem ampliar a elucidação de homicídios no Brasil

As impressões palmares estão entre os vestígios mais comuns encontrados em cenas de crime, mas ainda são pouco exploradas nas investigações criminais brasileiras.

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As impressões palmares aparecem com frequência em portas, armas, veículos e outras superfícies tocadas durante um crime. Mesmo assim, as investigações criminais no Brasil ainda exploram pouco esse tipo de vestígio. Em muitas situações, as impressões digitais não surgem ou ficam ilegíveis em superfícies irregulares. As impressões palmares, por outro lado, costumam se preservar com mais nitidez. Isso amplia seu valor para identificar suspeitos e reconstruir a dinâmica dos crimes.

Até um terço dos vestígios é ignorado pelas investigações

Entre 25% e 30% dos vestígios coletados em cenas de crime são impressões palmares. Apesar dessa alta incidência, grande parte desses rastros acaba descartada ou pouco analisada. A principal razão está na falta de bancos de dados específicos, na ausência de sistemas automatizados compatíveis e na escassez de profissionais capacitados. Esse conjunto de limitações cria um gargalo estrutural nas investigações, sobretudo em crimes violentos.

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Essa lacuna aparece de forma direta nos índices de elucidação de homicídios. Em 2023, o Brasil registrou 45.747 homicídios. Apenas 36% desses crimes foram esclarecidos, segundo o Instituto Sou da Paz. Assim, a subutilização de vestígios forenses relevantes, como as impressões palmares, ajuda a explicar por que tantos casos permanecem sem solução. O resultado é a perpetuação da impunidade e da sensação de insegurança.

Impressões palmares têm valor científico comprovado

Do ponto de vista científico, as impressões palmares têm o mesmo valor probatório das impressões digitais. Elas são únicas, imutáveis e funcionam como uma verdadeira assinatura biológica. Esses padrões se formam ainda na fase fetal e não se alteram ao longo da vida. Nem mesmo gêmeos idênticos compartilham as mesmas impressões palmares. Além disso, na prática pericial, a porção distal ou superior da palma da mão é a mais encontrada em cenas de crime, por estar em contato direto com superfícies durante ações cotidianas ou situações de violência.

Pesquisa brasileira cria a “fórmula da palma da mão”

Esse conhecimento avançou com a pesquisa “Padrões nas porções distais das palmas das mãos como chave para a identificação de impressões palmares”, publicada na revista da International Association for Identification (IAI). Além disso, o estudo analisou as impressões palmares de 4 mil pessoas da população brasileira. Assim, a pesquisa mapeou estatisticamente os padrões mais recorrentes na região da palma mais presente em cenas de crime. A partir desses dados, os pesquisadores criaram uma espécie de “fórmula da palma da mão”, capaz de classificar e correlacionar impressões palmares de forma padronizada.

A principal contribuição desse trabalho está na possibilidade de automatizar a análise das impressões palmares. Hoje, a identificação palmar depende quase exclusivamente da experiência dos peritos. Trata-se de uma das tarefas mais complexas da perícia criminal, mesmo para especialistas. Com uma base padronizada, torna-se possível identificar ou excluir suspeitos com mais rapidez, precisão e segurança técnica.

Casos reais comprovam o potencial das impressões palmares

Casos emblemáticos já demonstraram o valor das impressões palmares na elucidação de crimes. Um exemplo ocorreu em Brasília, em 2002, no assassinato do desembargador Irajá Pimentel. Vestígios deixados pelas palmas das mãos tiveram papel central na investigação. O caso reforça o potencial desse tipo de evidência mesmo em crimes de alta complexidade.

Especialistas afirmam que investimentos em tecnologia e capacitação permitiriam ampliar de forma significativa o uso das impressões palmares no Brasil. Isso inclui a criação de bancos de dados estaduais e de uma base nacional integrada. Além disso, esses sistemas poderiam cruzar diferentes dados biométricos, como impressões digitais, palmares e reconhecimento facial. A integração reduziria o tempo de resposta das perícias e aumentaria a eficiência das investigações.

A incorporação sistemática das impressões palmares representa mais do que um avanço técnico. Trata-se de uma estratégia concreta para enfrentar o baixo índice de elucidação de homicídios no país. Assim, ao transformar um vestígio abundante, mas negligenciado, em ferramenta central da investigação criminal, a perícia pode contribuir de forma decisiva para reduzir a impunidade e fortalecer a confiança da sociedade no sistema de justiça.