A morte de Luis Fernando Verissimo, em 30/08, aos 88 anos, em Porto Alegre, encerra um dos capítulos mais luminosos da literatura brasileira. Em 2018, estive em sua casa, sentei em sua sala, ouvi suas histórias e registrei em vídeo o que hoje se transformam em preciosas memórias de Veríssimo.
Entrar na residência de Verissimo foi como entrar em um universo próprio. O jardim da rua Felipe de Oliveira, as paredes repletas de livros e cartuns, o estúdio impregnado de humor e jazz. Ali, ele me recebeu com simplicidade, sempre acompanhado de Lúcia, sua companheira de vida. O riso leve e a ironia fina faziam parte do ambiente tanto quanto os móveis e as lembranças familiares.
A liberdade de expressão
Em nossa conversa, ele falou sobre liberdade: “Comecei a escrever em 1969, em uma época brava de censura. Hoje eu posso escrever sobre o que eu quiser, dentro dos limites do bom senso, mas assunto proibido não tem.” Essa frase, ouvida diretamente dele, ainda ressoa. Nas suas palavras, havia a convicção de que a crônica era, sobretudo, uma trincheira democrática.
Falou também de seus personagens. A Família Brasil, que ele via como um retrato da classe média perplexa; e a Velhinha de Taubaté, que acreditava em tudo que o governo dizia. Entre risadas, comentou que “quando ela morreu, o Brasil desandou”. São lembranças que me fizeram entender como o humor, em Verissimo, sempre foi política e poesia ao mesmo tempo.
Memórias de Veríssimo sobre amor e finitude
O momento mais comovente veio quando falou sobre a finitude: “Meu plano era trabalhar até não poder mais e esperar a morte. Eu gostaria de ser imortal… não morrer mesmo.” Era uma confissão sem pose, de alguém que ria até da própria mortalidade.
Também não deixou de celebrar sua parceria com Lúcia: “Talvez por sermos tão diferentes deu certo. Estamos juntos há 54 anos. É demais, mas foi muito bom.” Nessas memórias de Veríssimo, amor e humor se entrelaçam como marcas de sua vida e obra.
Hoje, ao lembrar desse encontro, sinto que essas memórias não pertencem apenas a mim, mas a todos que aprenderam a rir e pensar com seus textos. Convivi algumas horas com o homem por trás do cronista — e ele foi tão humano, lúcido e generoso quanto seus livros.