Mirassol, no interior de São Paulo, foi escolhida como cidade-piloto para iniciar, no início de fevereiro, a aplicação da vacina contra chikungunya no Brasil, marcando a estreia do imunizante no país. A ação envolve o Instituto Butantan, o Ministério da Saúde e o governo paulista e ocorre após a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), concedida em abril de 2025.
A aplicação acontece em meio ao avanço da doença. Segundo o Painel de Arboviroses do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 254.651 casos prováveis até o fim de agosto de 2024, alta de 45,5% em relação ao mesmo período de 2023. Diante desse quadro, autoridades estruturaram a introdução gradual do imunizante em dez municípios.
O que se sabe sobre a vacina contra chikungunya
O Instituto Butantan desenvolveu, em parceria com a farmacêutica Valneva, a vacina contra chikungunya com tecnologia de vírus vivo atenuado. Nesse modelo, os pesquisadores enfraquecem o vírus para estimular o sistema imunológico sem provocar a doença, o que leva o organismo a produzir anticorpos neutralizantes capazes de bloquear futuras infecções.
Em um estudo conduzido nos Estados Unidos com 4 mil voluntários entre 18 e 65 anos, os pesquisadores observaram que 98,9% dos participantes produziram anticorpos. Os níveis permaneceram robustos por pelo menos seis meses. A revista científica The Lancet publicou os resultados em junho de 2023.
Já no ensaio clínico de fase 3 com adolescentes brasileiros, 100% dos jovens com infecção prévia desenvolveram anticorpos neutralizantes após uma dose. Entre aqueles sem contato anterior com o vírus, 98,8% apresentaram resposta imune. Assim, após seis meses, 99,1% mantiveram proteção, segundo resultados divulgados na The Lancet Infectious Diseases.
Segurança e critérios para aplicação do imunizante
Segundo a Anvisa, a vacina contra chikungunya é indicada para pessoas com 18 anos ou mais que apresentam risco aumentado de exposição ao vírus. Por outro lado, a agência contraindica o imunizante para gestantes e para indivíduos imunodeficientes ou imunossuprimidos.
Em relação à segurança da vacina contra chikungunya, os pesquisadores classificaram a maioria dos eventos adversos relatados como leves ou moderados. Entre os sintomas mais comuns, aparecem dor de cabeça, fadiga, febre e dor muscular, padrão semelhante ao que outras vacinas de vírus atenuado apresentam.
Além disso, o imunizante recebeu aval da FDA, nos Estados Unidos, e da EMA, na União Europeia. Atualmente, a fabricação inicial ocorre na Alemanha, pela IDT Biologika GmbH, enquanto o Butantan trabalha para internalizar parte da produção da vacina contra chikungunya no país.
Estratégia de saúde pública
O mosquito Aedes aegypti, o mesmo transmissor da dengue, espalha a chikungunya. Uma vez infectada, a pessoa pode apresentar febre alta, manchas vermelhas na pele e dores articulares intensas. Em alguns casos, a dor crônica se prolonga por anos e compromete a qualidade de vida.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença já atingiu mais de 110 países. Diante desse cenário, a vacina contra chikungunya passa a integrar uma estratégia mais ampla de controle das arboviroses, combinando imunização, vigilância epidemiológica e combate ao mosquito transmissor.
Assim, a introdução gradual da vacina contra chikungunya sinaliza uma nova etapa no enfrentamento da doença no Brasil. Com a produção planejada em território nacional e respaldada por dados clínicos robustos, o país estrutura uma resposta que pode reduzir internações e aliviar a pressão sobre o sistema público de saúde nos próximos ciclos. epidêmicos.
