Um estudo internacional publicado na revista Science, publicado na quinta-feira (19/02), colocou os gatos no radar da pesquisa oncológica ao mapear mutações em quase 500 animais domésticos. A partir dessa análise, cientistas estruturaram o genoma do câncer felino, identificando padrões genéticos semelhantes aos observados em humanos.
O levantamento analisou amostras do Canadá, Reino Unido, Alemanha, Áustria e Nova Zelândia. Ao investigar 13 tipos de câncer e cerca de mil genes ligados a tumores humanos, os pesquisadores construíram o chamado oncogenoma felino, ampliando a base da pesquisa translacional em oncologia.
O que revela o genoma do câncer felino
Os dados mostram que metade das amostras tumorais apresentou mutação no gene FBXW7, associado a formas agressivas de câncer de mama em humanos. Além disso, quase metade dos casos revelou alteração no gene PIK3CA, também ligado ao câncer mamário.
Já o gene TP53, conhecido como p53, apareceu como a mutação mais comum nos gatos analisados. Esse mesmo gene está relacionado a diferentes neoplasias, reforçando a similaridade entre os processos de carcinogênese nas duas espécies.
Segundo Louise van der Weyden, pesquisadora sênior do Wellcome Sanger Institute, os tumores felinos surgem de forma espontânea, assim como ocorre em pessoas. Ela afirmou que os animais vivem expostos à mesma poluição ambiental, o que torna o modelo mais próximo da realidade clínica.
Mutações genéticas compartilhadas
A comparação entre felinos e humanos reforça o conceito de medicina comparativa. Ela também ajuda a explicar por que o genoma do câncer felino tem atraído atenção internacional. Para van der Weyden, gatos e cães podem atuar como “sentinelas ambientais”, pois compartilham o mesmo espaço doméstico e a exposição a fatores como radiação UV.
De acordo com a pesquisadora, estudos já identificaram mutações por radiação ultravioleta idênticas às humanas. Esse achado amplia o debate sobre fatores ambientais, risco doméstico e influência do ambiente na biologia tumoral, dimensões que o genoma do câncer felino começa a mapear com mais precisão.
Roedores são usados há décadas em laboratório, mas o modelo felino reúne tumores que surgem de forma espontânea e preserva diversidade genética natural. Além disso, pesquisadores coletam as amostras com consentimento dos tutores, o que reduz a necessidade de experimentação induzida e reforça o valor científico do genoma do câncer felino.
Avanços terapêuticos com o genoma do câncer felino
Os dados do genoma do câncer felino já dialogam com pesquisas clínicas. Em 2025, nos Estados Unidos, um grupo da Universidade da Califórnia testou um medicamento usado contra carcinoma de células escamosas humano em gatos com a forma oral da doença.
Segundo Daniel Johnson e Jennifer Grandis, cerca de um terço dos animais tratados viveu, em média, seis meses a mais. Em avaliação enviada por e-mail ao portal DW, os pesquisadores consideraram notável a alta prevalência de alterações no p53 em ambas as espécies.
Para eles, estudos como esse permitem avançar no desenvolvimento de terapias personalizadas, integrando oncologia veterinária e medicina humana. O genoma do câncer felino, portanto, deixa de ser apenas um banco de dados e passa a orientar estratégias clínicas concretas.
À medida que a base genética se amplia para outros países, cresce a possibilidade de identificar padrões globais de mutação genética associados ao ambiente. Se confirmadas, essas conexões podem redefinir protocolos de diagnóstico molecular e fortalecer a integração entre saúde animal e humana, caminho promissor inaugurado pelo genoma do câncer felino.
Leia o estudo no link abaixo:
Revista Science
