Incomodado com a distância entre a academia e a realidade do campo, o veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca tomou, em 2002, uma decisão rara. Segundo reportagem da BBC, ele deixou a estabilidade como professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) para atuar diretamente na linha de frente do desmatamento. Assim, mudou-se para Alta Floresta (MT), apostando que a pecuária sustentável na Amazônia poderia ser parte da solução ambiental, e não apenas do problema.
A pecuária sustentável na Amazônia ganhou forma concreta em 2019, quando Fonseca fundou a Caaporã. A holding administra 20 mil hectares distribuídos em seis fazendas no Mato Grosso, Tocantins e Bahia. Além disso, o foco está na agricultura regenerativa e, sobretudo, na recuperação de pastagens degradadas, sem avanço sobre novas áreas de floresta.
O modelo rompe com a lógica extensiva tradicional. Por isso, incorpora técnicas como a fixação biológica de nitrogênio, com leguminosas como o amendoim forrageiro, reduzindo o uso de fertilizantes químicos. Ademais, sistemas silvipastoris integram árvores nativas e exóticas ao pasto, oferecendo sombra ao gado e melhorando o bem-estar animal.
O impacto climático
A pecuária sustentável na Amazônia também altera diretamente a equação das emissões. No sistema convencional, o gado leva cerca de quatro anos para o abate. Já no modelo intensivo adotado por Fonseca, esse período cai para dois anos.
Segundo ele, “Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano”.
Os números reforçam o argumento. Em 2023, a pecuária respondeu por 98% das emissões de metano do agronegócio brasileiro. Além disso, enquanto a produção tradicional emite cerca de 35 kg de CO₂ por quilo de carcaça, o método regenerativo reduz esse índice para 20 kg, uma queda superior a 40%.
Desafios e futuro da sustentabilidade na pecuária
Apesar dos resultados, a pecuária sustentável na Amazônia enfrenta barreiras econômicas e culturais. O custo inicial para recuperar solos e implementar tecnologia é elevado. Além disso, muitos produtores resistem a abandonar o modelo extensivo. Para viabilizar a transição, Fonseca aposta na venda de créditos de carbono, desenvolvendo metodologia própria junto à Verra.
O desafio é urgente. Entre 1985 e 2023, a área de pastagem na Amazônia cresceu 363%. Com a previsão da OCDE e da FAO de aumento de 10% no consumo global de carne bovina até 2033, transformar o setor tornou-se inevitável. Não por acaso, empresas como a Minerva Foods já compram parte da produção da Caaporã, apostando na viabilidade econômica do manejo de baixa emissão.
