Dor em recém-nascido: IA ajuda médicos a agir mais rápido em UTIs

Inteligência artificial desenvolvida no Brasil identifica sinais de dor em recém-nascidos com mais precisão e ajuda médicos a agir mais rápido, reduzindo o sofrimento em UTIs neonatais.
Recém-nascido em UTI neonatal sendo monitorado, com foco nos pés do bebê durante cuidados médicos
Tecnologia e observação médica ajudam a identificar sinais de dor em recém-nascidos. Foto: Freepik

Saber se um bebê está com dor ainda é um dos maiores desafios da medicina. Sem conseguir falar, recém-nascidos dependem da interpretação de sinais sutis — o que pode atrasar o cuidado. Agora, uma inteligência artificial criada por pesquisadores brasileiros ajuda a identificar dor em recém-nascidos com mais precisão, permitindo intervenções médicas mais rápidas e reduzindo o sofrimento em UTIs neonatais.

Bebês sentem dor, mas não conseguem explicar o que está acontecendo. Em unidades de terapia intensiva neonatal, onde muitos pacientes são prematuros e frágeis, essa limitação pode significar minutos — ou até horas — de desconforto até que a dor seja reconhecida.

Apoio

Hoje, médicos utilizam a escala internacional NFCS (Neonatal Facial Coding System), que avalia sinais como boca tensa, testa franzida, queixo tremendo e língua projetada. Esses indicadores são analisados junto com dados como frequência cardíaca, temperatura e pressão arterial. Ainda assim, a interpretação depende da experiência da equipe, o que pode gerar diferenças na avaliação.

Sinais que podem indicar dor em recém-nascidos

Mesmo sem tecnologia, existem sinais importantes que médicos e familiares observam:

  • Boca muito aberta ou contraída
  • Testa franzida
  • Tremor no queixo
  • Choro persistente ou diferente do habitual
  • Alterações na respiração
  • Mudanças na frequência cardíaca

Esses sinais nem sempre são claros ou constantes — e é justamente essa limitação que a nova tecnologia tenta resolver.

Como a inteligência artificial identifica a dor

O sistema foi desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Faculdade de Engenharia Industrial (FEI). O projeto começou em 2015 e analisou cerca de 300 horas de imagens de recém-nascidos em incubadoras.

A inteligência artificial foi treinada para observar padrões no rosto dos bebês, especialmente regiões como boca e sulco nasolabial. A partir dessas informações, o sistema calcula a probabilidade de dor e apresenta o resultado em gráficos que ajudam os médicos a entender o diagnóstico.

Na prática, isso reduz a dependência exclusiva da interpretação humana e aumenta a consistência da avaliação.

O que muda no cuidado com os bebês

O principal avanço está na velocidade e na precisão da resposta médica. Ao identificar sinais de dor com mais clareza, a equipe pode agir no momento certo — seja ajustando medicação, reposicionando o bebê ou realizando intervenções necessárias.

Isso reduz o tempo em que o recém-nascido permanece em desconforto e melhora a qualidade do cuidado, especialmente em casos mais delicados, como prematuridade e problemas respiratórios.

Além disso, a ferramenta ajuda a padronizar decisões dentro das equipes médicas, diminuindo variações entre profissionais.

Impacto para famílias e equipes médicas

Para pais e mães, a incerteza é um dos aspectos mais difíceis durante a internação de um bebê. Sem saber se o filho está com dor, muitos vivem um estado constante de ansiedade.

Com uma ferramenta que indica com mais precisão esses sinais, o cuidado se torna mais transparente. A família passa a entender melhor o que está acontecendo e a confiar mais nas decisões médicas.

Para os profissionais, o sistema funciona como um apoio — não substitui o médico, mas amplia a capacidade de leitura clínica.

Onde a tecnologia já está sendo usada

O modelo já foi testado no Hospital São Paulo, ligado à Unifesp, em uso pioneiro. Os resultados foram publicados em revista científica internacional, o que reforça a relevância da pesquisa.

Por enquanto, a aplicação está restrita ao ambiente hospitalar e ainda em desenvolvimento, mas o potencial é ampliar o uso em outras unidades neonatais.

Por que esse avanço importa

A dor em recém-nascidos sempre existiu — o que faltava era uma forma mais precisa de identificá-la. Ao transformar expressões e sinais em dados analisáveis, a inteligência artificial torna visível um sofrimento que muitas vezes passava despercebido.

Isso não elimina a dor, mas muda a forma de enfrentá-la. E, nesse contexto, agir alguns minutos antes pode fazer diferença real no conforto e na recuperação de um bebê.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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