Monge robô leva aconselhamento espiritual com IA a templos no Japão

O monge robô combina inteligência artificial e tradição budista para ampliar o acesso ao aconselhamento espiritual no Japão. A tecnologia surge como apoio diante da escassez de monges e do envelhecimento populacional.
Monge robô desenvolvido pela Universidade de Kyoto realiza gesto tradicional de oração durante apresentação pública em templo japonês. (Foto: Reprodução)

Em um país que enfrenta envelhecimento populacional acelerado e redução no número de líderes religiosos, templos buscam alternativas para manter o atendimento aos fiéis. Nesse contexto, na terça-feira (24/02), a Universidade de Kyoto apresentou o monge robô como opção para ampliar o acesso ao aconselhamento espiritual no Japão. Treinado com base em escrituras budistas, o sistema responde a perguntas e conduz diálogos que antes dependiam exclusivamente da presença humana.

A equipe desenvolveu o projeto para atuar em templos e oferecer orientação a fiéis que, por vezes, hesitam em expor dúvidas pessoais a um religioso, explicou na quarta-feira (25/02) a Universidade de Kyoto, no oeste do Japão. A proposta não elimina a tradição, mas cria um canal adicional de escuta e aconselhamento dentro das próprias comunidades. Além do impacto imediato, o recurso produz um efeito prático que merece atenção.

Apoio

Monge robô combina IA e tradição budista

O sistema utiliza modelos da OpenAI, como o ChatGPT, integrados ao software “BuddhaBotPlus”, instalado em um humanoide Unitree G1. Assim, o resultado é um robô bípede capaz de conversar por voz e executar gestos típicos de um monge, como unir as mãos em sinal de oração.

Durante a apresentação pública, o androide interagiu com uma jornalista da emissora NHK. Ao tratar de ansiedade e excesso de pensamentos, afirmou: “O budismo ensina que não se deve seguir cegamente os pensamentos nem se precipitar”. Com isso, o detalhe técnico altera a forma de acesso à orientação religiosa, ao permitir aconselhamento mediado por tecnologia.

O projeto do monge robô é liderado pelo professor Seiji Kumagai, do Instituto para o Futuro da Sociedade Humana. Além disso, segundo a universidade, o sistema poderá, no futuro, auxiliar ou até substituir determinados rituais tradicionalmente realizados por monges humanos.

Tecnologia como apoio diante da escassez

O Japão enfrenta redução da força de trabalho e envelhecimento populacional acelerado. Nesse cenário, templos também enfrentam dificuldade para repor religiosos. Diante desse quadro, a universidade apresenta o monge robô como apoio potencial, ao defender que humanoides podem assumir funções específicas e manter as atividades religiosas em funcionamento.

O uso de chatbots religiosos já alcança milhões de pessoas no mundo. Em Kyoto, há ainda o androide Mindar, que realiza sermões sem recursos avançados de IA. Desse modo, no caso do monge robô, a diferença está na integração entre linguagem natural e robótica física, ampliando a interação com os fiéis.

A universidade afirma que o uso dessas ferramentas exige debate ético contínuo. Ainda assim, o experimento aponta para uma adaptação institucional diante dos desafios demográficos do país.

No curto prazo, o monge robô funciona como apoio, e não como substituição integral, segundo a Universidade de Kyoto. No médio prazo, pode contribuir para manter templos ativos e ampliar o acesso a aconselhamento espiritual. Ao integrar tecnologia e tradição, a tecnologia sinaliza uma reorganização silenciosa na forma como a fé pode ser transmitida em sociedades envelhecidas.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com experiência em produção editorial e atuação em projetos de comunicação institucional e social. Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens e conteúdos informativos pautados por critérios de checagem, ética profissional e compromisso com temas de interesse público e impacto social.

Algum fato relevante chamou sua atenção?

Envie fatos, registros e informações para análise da redação do Boa Notícia Brasil.

Publicidade