A regeneração cardíaca tem se consolidado como uma das fronteiras mais promissoras da medicina contemporânea. Nesse contexto, a Universidade de Fortaleza (Unifor), por meio do Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), desenvolve uma pesquisa inovadora. O estudo utiliza o zebrafish como modelo experimental para compreender os mecanismos celulares e genéticos envolvidos na regeneração do tecido cardíaco.
O trabalho é conduzido no LabZebra, laboratório vinculado à linha de estudos translacionais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PPGCM). O objetivo é implementar e validar modelos experimentais que expliquem como ocorre a regeneração das células do coração após uma lesão. Esse processo, vale destacar, não ocorre em mamíferos adultos, incluindo os seres humanos.
Zebrafish e a ciência da regeneração cardíaca
Apesar de seu pequeno porte, o zebrafish (Danio rerio) tornou-se um dos modelos mais relevantes da biomedicina moderna. Isso acontece porque sua semelhança celular e orgânica com os mamíferos permite que descobertas feitas nesse organismo sejam traduzidas para estudos em saúde humana. Dessa forma, o impacto é especialmente significativo na área cardiovascular.
Segundo o professor Josué Viana, docente do PPGCM e coordenador do projeto, os modelos atualmente utilizados envolvem a retirada de cardiomiócitos — células musculares do coração. A partir disso, a equipe observa como o organismo ativa mecanismos naturais de regeneração cardíaca. Além disso, em uma segunda etapa, prevista para breve, o grupo pretende ampliar os estudos para modelos de ablação celular, nos quais ocorre a destruição seletiva de tecidos.
Mudança de paradigma na medicina regenerativa
Durante anos, a principal hipótese científica apontava as células-tronco como responsáveis pela regeneração do tecido cardíaco. No entanto, estudos mais recentes — incluindo os desenvolvidos na Unifor — indicam um caminho diferente e mais complexo.
De acordo com Josué Viana, as evidências mais consistentes mostram que a regeneração cardíaca ocorre a partir da reativação genética das próprias células localizadas na superfície do coração. Esses processos são acionados por gatilhos moleculares induzidos pela lesão. Assim, essa mudança de paradigma redefine estratégias terapêuticas e amplia o potencial da medicina regenerativa.
Formação científica e pesquisa translacional sobre regeneração cardíaca
A pesquisa também integra a formação de estudantes de pós-graduação, como Constance Almeida, mestranda do PPGCM e pesquisadora responsável pelo projeto. Para ela, investigar a regeneração cardíaca em zebrafish representou uma experiência formativa decisiva. A vivência aliou prática experimental, trabalho em equipe e impacto social da ciência.
Além disso, a equipe conta com a atuação da pesquisadora Sacha Aubrey, doutora em Biotecnologia em Saúde. Há quase uma década, ela contribui para o desenvolvimento e a consolidação do modelo zebrafish na Unifor. Sua experiência em neurociência, farmacologia e modelos pré-clínicos fortalece o caráter multidisciplinar da pesquisa e amplia suas possibilidades de aplicação.
As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo. Estimativas globais indicam cerca de 20 milhões de óbitos por ano. No Brasil, aproximadamente 14 milhões de pessoas vivem com doenças do coração, responsáveis por cerca de 30% das mortes no país.
Nesse cenário, a regeneração cardíaca surge como uma alternativa promissora frente às limitações dos tratamentos atuais. Um exemplo é o transplante cardíaco, que possui alcance restrito. Assim, a possibilidade de estimular a regeneração das próprias células do coração pode, no futuro, transformar o cuidado de pacientes com doenças cardíacas avançadas.
Resultados, perspectivas e excelência institucional
Os primeiros resultados da pesquisa desenvolvida na Unifor são considerados animadores. Atualmente, eles encontram-se em fase de análise para submissão científica. Paralelamente, novos estudos devem aprofundar a compreensão dos mecanismos biológicos envolvidos na regeneração cardíaca e ampliar o escopo das investigações.
Com mais de uma década de atuação, o Nubex integra o parque de pesquisa da Unifor. Dessa maneira, reafirma o compromisso da instituição com a excelência acadêmica, a inovação científica e o fortalecimento da pesquisa no Nordeste brasileiro.
Por fim, a iniciativa da Unifor contribui diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Em especial, dialoga com o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, ao buscar soluções para doenças cardiovasculares, e com o ODS 4 – Educação de Qualidade, ao fortalecer a formação científica.
