Categoria Cultura

Memória indígena ganha acervo digital e fortalece acesso público a documentos históricos

A memória indígena ganha novo alcance com a digitalização de 350 fitas, 150 vídeos e centenas de documentos do Núcleo de Cultura Indígena. A plataforma online reúne registros históricos das décadas de 1980 e 1990, incluindo gravações com Ailton Krenak e encontros que marcaram a organização política dos povos originários no Brasil.

Participe do nosso canal no WhatsApp

A digitalização de registros produzidos durante a redemocratização brasileira agora amplia o acesso público a parte essencial da memória indígena. A plataforma Balaio de memórias lançada na sexta-feira (21/02) reúne 350 fitas cassete, 150 vídeos e centenas de documentos das décadas de 1980 e 1990, antes restritos a arquivos físicos. O material passa a ficar disponível para indígenas e não indígenas interessados na história política e cultural dos povos originários.

A iniciativa reúne registros do Núcleo de Cultura Indígena (NCI) e foi organizada pela instituição indígena Irokê. A proposta amplia o acesso a assembleias, encontros e programas de rádio que ajudaram a estruturar articulações políticas em um período decisivo da redemocratização.

Apoio

Memória indígena e a força dos registros históricos

Entre os materiais que ajudam a compreender a memória indígena, está a gravação de 21 de agosto de 1988 do Programa de Índio, transmitido pela Rádio USP. Assim, no episódio de 28 minutos, Ailton Krenak conduz debate sobre o Terceiro Seminário de Rádio para Populações Indígenas, realizado em La Paz, na Bolívia.

O conteúdo revela como a memória indígena também foi disputada no campo da comunicação. Emissoras andinas transmitiam em línguas quéchua e aymara, mas difundiam técnicas agrícolas com fertilizantes e agrotóxicos, além de estimular padrões de consumo modernos. Em contraste, a experiência brasileira priorizava programas produzidos por lideranças indígenas, com foco em território, conflitos fundiários e formação política.

Também integram o acervo registros do Encontro de Altamira, assembleias indígenas no Nordeste, reuniões do povo Yanomami e a construção da Aliança dos Povos da Floresta, que uniu indígenas e seringueiros, episódios centrais para a consolidação dessa memória indígena organizada politicamente.

Digitalização de acervo indígena amplia acesso público

A historiadora Maíra Krenak, curadora do projeto, afirma que os registros ultrapassam a dimensão pessoal.

Segundo ela, o material integra “o processo coletivo que ajudou a moldar o movimento indígena no Brasil num momento decisivo da democratização”.

Ela afirma ainda que democratizar o acesso amplia a circulação de informações sobre direitos constitucionais e organização política. Também fortalece o entendimento das articulações transnacionais e das estratégias de comunicação usadas antes mesmo da popularização da internet.

Ao tornar pública essa documentação, a plataforma consolida um repositório que conecta passado e presente. Assim, a memória indígena passa a dialogar diretamente com debates atuais sobre disputas territoriais, preservação ambiental e avanço de projetos extrativistas.

Estratégia contemporânea

Nos anos 1980, as articulações ultrapassavam fronteiras nacionais. Povos que hoje vivem entre Brasil, Bolívia, Paraguai e outros países já organizavam redes de cooperação. Além disso, o rádio funcionava como instrumento de informação e construção de alianças.

Portanto, ao reunir e disponibilizar esses arquivos, na plataforma, a memória indígena deixa de ser apenas registro histórico e assume papel ativo na compreensão das estratégias políticas que moldaram direitos garantidos na Constituição de 1988.

Em um cenário de tensão fundiária e emergência climática, preservar e difundir essa memória indígena amplia o repertório público sobre a formação do movimento indígena e reforça o papel da comunicação na defesa dos territórios.