A busca por alternativas terapêuticas para lesões medulares avançou na quinta-feira (16/01), quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 de estudo clínico para avaliar a segurança do tratamento com polilaminina em pacientes com lesão medular aguda. Desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a substância ainda é experimental e não possui registro como medicamento.
A equipe desenvolveu a polilaminina a partir da laminina, proteína presente na matriz extracelular, e aplica a substância diretamente na região lesionada da medula espinhal durante a cirurgia. Com isso, busca criar um suporte biológico capaz de estimular o crescimento dos axônios, estruturas responsáveis pela comunicação entre o cérebro e os músculos.
No país, 23 pessoas já receberam o tratamento nos hospitais onde estão internados: 5 no Espírito Santo, 4 no Paraná, 4 no Rio de Janeiro, 3 em Minas Gerais, 2 em São Paulo, 1 no Rio Grande do Norte, 1 em Mato Grosso do Sul, 1 em Goiás, 1 na Bahia e 1 no Maranhão.
Como o tratamento com polilaminina atua na lesão medular
Quando ocorre um trauma, o organismo forma uma cicatriz medular que dificulta a reconexão das células nervosas. O tratamento com polilaminina reorganiza a proteína em laboratório para criar uma estrutura capaz de facilitar a regeneração neural no ponto da ruptura.
Em estudo acadêmico preliminar com oito pacientes, seis apresentaram algum grau de evolução motora, segundo Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento do laboratório Cristália, parceiro da pesquisa. “Dos oito pacientes que receberam, seis evoluíram”, afirmou o executivo.
Entretanto, os dados ainda não passaram por revisão por pares, etapa considerada essencial para validar metodologia e resultados. Além disso, especialistas lembram que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar parcialmente movimentos sem intervenção experimental, dependendo da gravidade e do atendimento recebido.
Debate científico e cautela regulatória
A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, que coordena o estudo na UFRJ, afirma que o tratamento com polilaminina representa uma promessa, mas não um resultado consolidado. “Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento”, declarou.
Antes da abertura formal dos ensaios clínicos, pacientes recorreram à Justiça para obter acesso à substância. Segundo o Cristália, cerca de 40 ações foram registradas, o que resultou em 19 aplicações até o momento. A empresa afirma ter investido R$ 100 milhões no desenvolvimento da tecnologia.
O neurocirurgião Jorge Pagura considera os resultados estimulantes, mas avalia que o uso amplo ainda não encontra respaldo científico suficiente. Já Leonardo Costa, especialista em estudos clínicos, ressalta que pesquisas com amostras reduzidas nem sempre mantêm desempenho semelhante em fases posteriores.
A repercussão pública do tratamento com polilaminina também estimulou especulações sobre um possível reconhecimento internacional à pesquisadora. Em redes sociais e em parte da imprensa nacional, usuários e comentaristas passaram a associar o nome de Tatiana Coelho de Sampaio a uma eventual indicação ao Prêmio Nobel de Medicina. A hipótese considera a possibilidade de a tecnologia comprovar eficácia clínica em larga escala.
O processo de indicação ao Nobel, porém, é restrito a acadêmicos convidados pelo comitê responsável. Especialistas ressaltam que qualquer projeção nesse sentido depende da validação científica completa dos ensaios clínicos.
Próximos passos do tratamento com polilaminina
A Anvisa aprovou a fase 1 com foco exclusivo na segurança regulatória e no monitoramento de eventos adversos. Se os dados confirmarem esse perfil, os pesquisadores avançarão para as fases 2 e 3. Nessas etapas, vão avaliar a eficácia clínica, definir a dose adequada e investigar possíveis efeitos colaterais em grupos maiores.
Até o momento, os pesquisadores não identificaram evidência científica de que a substância funcione em lesões crônicas. Por isso, a equipe concentra os estudos exclusivamente em casos agudos, com aplicação preferencial entre 24 e 72 horas após o trauma.
O tratamento com polilaminina coloca a pesquisa brasileira no debate internacional sobre medicina regenerativa, mas o desfecho dependerá da robustez dos dados clínicos apresentados nas próximas etapas.
