Transplante de útero resulta em bebê saudável e amplia alternativa para gestação

Transplante de útero realizado no Reino Unido resultou no primeiro nascimento com órgão de doadora falecida no país e amplia alternativa reprodutiva para mulheres sem útero.
Transplante de útero no Reino Unido permitiu que Grace Bell desse à luz seu bebê
Grace Bell segura o bebê após o transplante de útero realizado dentro de estudo britânico com órgão de doadora falecida. (Foto: Reprodução/Facebook/Oxford University Hospitals)

Uma mulher nascida sem útero conseguiu dar à luz no Reino Unido após passar por um procedimento inédito no país, ampliando as alternativas para quem enfrenta infertilidade uterina absoluta. O caso ocorreu em Londres e envolveu um transplante de útero com órgão de doadora falecida, realizado dentro de um protocolo de pesquisa aprovado pelas autoridades de saúde britânicas.

A paciente, Grace Bell, nasceu com a síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH), condição em que a mulher tem ovários funcionais, mas não desenvolve útero viável. No país, cerca de uma em cada 5 mil mulheres vive essa realidade. Até então, as opções se restringiam à adoção ou à gestação por substituição. Além do dado imediato, há um efeito prático que merece atenção.

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Transplante de útero amplia opção para quem não pode gestar

O nascimento aconteceu em Londres, no Queen Charlotte’s & Chelsea Hospital. Segundo a equipe médica, o transplante de útero é hoje o único tratamento capaz de permitir que mulheres sem o órgão possam gestar e dar à luz o próprio filho. A cirurgiã Isabel Quiroga, co-líder do estudo, afirmou que o resultado oferece nova perspectiva para pacientes que desejam formar família.

O procedimento integrou o Estudo Investigativo do Reino Unido sobre Transplante de Útero (INSITU), que prevê dez cirurgias com órgãos de doadoras falecidas. O caso foi o primeiro do programa. A operação durou pouco menos de sete horas e ocorreu em 2023. Para o leitor, o detalhe técnico altera a forma de acesso a esse tipo de tratamento.

Diferentemente de rins ou fígado, o útero não integra o cadastro convencional de doadores do NHS. Cada caso exige autorização adicional da família. No episódio em questão, os pais da doadora declararam sentir “imenso orgulho pelo legado” deixado pela filha.

Como funciona na prática?

Após o transplante de útero, a paciente passou por fertilização in vitro (FIV). Nesse processo, os embriões foram gerados com seus próprios óvulos e transferidos assim que o órgão transplantado apresentou funcionamento adequado. Ao longo da gestação viabilizada pelo transplante, equipes especializadas monitoraram possíveis sinais de rejeição, já que o uso de imunossupressores é obrigatório nesses casos.

O parto ocorreu por cesariana e, segundo a equipe médica, não houve complicações graves. No cenário internacional, o primeiro nascimento após transplante uterino ocorreu na Suécia, em 2014, com doadora viva. Já no caso britânico, o diferencial está no uso de órgão proveniente de doadora falecida, o que amplia o número potencial de transplantes e reduz riscos para mulheres saudáveis.

Atualmente, o procedimento ainda é classificado como experimental e resulta de 25 anos de pesquisa acumulada. O protocolo prevê, inclusive, a retirada futura do útero transplantado, permitindo que a paciente suspenda os medicamentos após concluir o planejamento reprodutivo.

Do ponto de vista institucional, o avanço reforça a tendência de integrar técnicas reprodutivas à medicina de transplantes com critérios rigorosos de segurança. Se os demais casos previstos no estudo confirmarem resultados semelhantes, o transplante de útero poderá se consolidar como alternativa clínica estruturada para mulheres sem o órgão.

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Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com experiência em produção editorial e atuação em projetos de comunicação institucional e social. Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens e conteúdos informativos pautados por critérios de checagem, ética profissional e compromisso com temas de interesse público e impacto social.