Categoria Cotidiano

O que a vaca que aprendeu a usar um cabo de vassoura para se coçar, revela sobre a inteligência animal

A observação de uma vaca em ambiente rural levou cientistas a rever conceitos sobre inteligência animal. O estudo mostra como tempo, espaço e estímulos permitem comportamentos complexos em espécies domésticas.

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A inteligência animal nem sempre se manifesta de forma evidente. Em muitos casos, essa capacidade cognitiva surge longe de laboratórios e centros de pesquisa, especialmente em ambientes simples, quando condições adequadas permitem aprendizado e experimentação. Foi justamente nesse cenário que pesquisadores europeus passaram a observar um comportamento raro, associado à inteligência animal, em uma vaca criada sem pressões produtivas.

Inteligência animal observada fora do laboratório

Em uma vila montanhosa da Áustria, cientistas identificaram que uma vaca chamada Veronika utilizava objetos para se coçar de forma deliberada. Segundo a bióloga cognitiva Alice Auersperg, da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, o comportamento atendia aos critérios científicos de uso de ferramentas, um indicador clássico de inteligência animal. Nesse processo, a vaca selecionava o objeto, ajustava sua posição e direcionava a extremidade funcional conforme a parte do corpo, demonstrando assim controle e intenção.

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Além disso, durante testes registrados em vídeo, os pesquisadores observaram que Veronika alternava entre a parte com cerdas e o cabo liso de uma escova, dependendo da sensibilidade da região que pretendia alcançar. Para Auersperg, esse padrão indica planejamento motor e adaptação ao objetivo, elementos considerados centrais da cognição animal e frequentemente associados ao estudo da inteligência animal.

Aprendizado, ambiente e tempo de experimentação

De acordo com o pesquisador Antonio Osuna-Mascaró, o comportamento não surgiu de forma espontânea. Segundo ele, Veronika teve anos de convivência com objetos variados, além de liberdade para explorar o ambiente. Nesse sentido, o tutor, Witgar Wiegele, relata que a vaca começou a usar paus aos três anos de idade e, com o passar do tempo, aperfeiçoou a técnica, aprofundando a expressão de sua inteligência animal.

Esse histórico, portanto, reforça a ideia de que a inteligência animal está diretamente ligada a oportunidades de aprendizado. Ainda segundo Osuna-Mascaró, outras vacas poderiam apresentar habilidades semelhantes caso tivessem acesso a estímulos, tempo e contextos comparáveis.

Revisão de conceitos antigos

Para o biólogo evolucionista Robert Shumaker, que não participou do estudo, o caso amplia o entendimento sobre espécies domésticas e suas capacidades cognitivas. Nesse contexto, ele destaca que outros mamíferos com cascos já demonstraram comportamentos semelhantes, o que torna plausível que vacas também expressem formas complexas de inteligência animal.

Dessa forma, a descoberta contribui para rever percepções simplificadas sobre animais de criação. Em vez de representar uma exceção, o comportamento de Veronika pode indicar um potencial pouco observado, reforçando, por fim, a importância de ambientes que permitem a expressão plena da inteligência animal.