Categoria Cotidiano

Convivência entre ursos e humanos revela adaptação incomum na Europa

A convivência entre ursos e humanos na região central da Itália levou uma população rara a desenvolver comportamento menos agressivo. Um estudo genético mostra como a adaptação biológica ajudou esses animais a sobreviver em áreas habitadas.

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A convivência entre ursos e humanos costuma ser associada a conflitos. Ainda assim, um estudo recente aponta um cenário diferente. No centro da Itália, a convivência entre ursos e humanos levou uma população rara de urso-pardo-apenínico a desenvolver, ao longo dos séculos, um comportamento menos agressivo. Esse processo pode ter garantido a permanência do animal em regiões ocupadas por comunidades humanas desde a Antiguidade.

Convivência entre ursos e humanos sob pressão histórica

Para investigar como a convivência entre ursos e humanos moldou esse comportamento, pesquisadores analisaram o genoma de uma população isolada, conhecida como ABB, que hoje reúne cerca de 50 indivíduos. Segundo os autores do estudo, publicado na revista Molecular Biology and Evolution, esses ursos vivem separados de outras populações europeias há pelo menos 1.500 anos. Além disso, desde o período romano, a convivência entre ursos e humanos envolveu caça intensa, redução de habitat e encontros frequentes com pessoas. Nesse cenário, indivíduos com comportamento mais tolerante passaram a evitar confrontos diretos com maior frequência.

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Com o objetivo de verificar se a menor agressividade tinha origem no aprendizado ou na herança genética, os cientistas compararam o DNA dos ursos apenínicos com o de uma população maior da Eslováquia. A análise revelou diferenças genéticas claras. Mais de 66% do genoma dos ABB apresenta longas regiões de homozigose, reflexo do isolamento prolongado e da reprodução entre parentes ao longo do tempo, um efeito associado à convivência prolongada entre animais selvagens e populações humanas.

Relação entre animais selvagens e presença humana

Mesmo com a baixa diversidade genética observada nesse contexto de convivência entre ursos e humanos, os pesquisadores identificaram sinais consistentes de seleção natural em genes. De acordo com os autores, essas alterações atingem regiões que regulam o processamento do RNA no cérebro. Com isso, a convivência entre ursos e humanos passou a influenciar respostas ao estresse, níveis de sociabilidade e padrões de agressividade. Assim, a redução de ataques não depende apenas do aprendizado individual, mas resulta de uma base biológica construída geração após geração.

Além disso, ao analisar, o estudo traça paralelos com processos observados em cães e raposas, assim como com síndromes humanas associadas à hipersociabilidade. Os cientistas descrevem o fenômeno como uma adaptação induzida pela pressão humana contínua, associada à longa coexistência entre humanos e animais selvagens, ainda que sem qualquer intervenção direta de domesticação.

Lições para a conservação

Na avaliação dos pesquisadores, a menor agressividade ampliou as chances de sobrevivência e reprodução desses ursos em áreas marcadas pela convivência entre ursos e humanos. A partir dessa constatação, o estudo contribui para o debate sobre conservação ao indicar que a convivência pode gerar ajustes comportamentais profundos. Assim, ao compreender essas adaptações, gestores ambientais passam a contar com mais ferramentas para reduzir conflitos e garantir a permanência de espécies raras em paisagens habitadas.